Fórum do conhecimento

"Bailarino" em trabalho

PSL "Bailarino" em trabalho - Quinta das Cabreiras - 13/03/2009

Dona Frederica

CZ Dona Frederica (Don Frederico * Semente RCC) “a banhos”

 

 

 

 

Caros apaixonados pela raça,

Numa óptica de divulgação e interactividade, iniciei esta série de publicações com: um artigo de opinião do António Vicente; outro da autoria de Sérgio Beck ; um terceiro do André Cintra; o quarto do Francisco Cancella de Abreu ; o quinto do Toledo (artigos expostos em post’s localizados na lista à sua direita).

Está publicada em baixo, para apreciação dos leitores deste blog, um artigo do Eng.º Bento Castelhano, no mesmo formato da Grande Entrevista efectuada ao Francisco Cancella de Abreu.

Convido todos os leitores a apreciarem os artigos e a efectuarem os comentários que julguem oportunos para o endereço de e-mail almeida.rod@gmail.com.

 

Cordialmente,

Rodrigo Coelho de Almeida

 

 

 

“Semente” a mãe do “Bailarino”…

 A mãe do "Bailarino"

 

 

 

 

 

GRANDE ENTREVISTA – a Bento Castelhano

 


 

Por Rodrigo Almeida

 


 

Para além da democratização do conhecimento, sempre pugnei pelo culto da pluralidade, entendendo ambos como contributos decisivos na construção da desejável massa crítica. Neste espírito resolvi perspectivar aos leitores deste blog, por interposta pessoa, respectivamente, o Francisco Cancella de Abreu e agora o Bento Castelhano, as respostas fundamentadas por ambos às mesmas perguntas.


 

Julgo que todos conhecem o cavaleiro Bento Castelhano mas talvez poucos o conheçam na sua vertente zootécnica. Nesta perspectiva partimos à descoberta do zootécnico, cujo currículo nesta vertente, acumula uma experiência passada como Secretário Técnico da APSL, e actualmente como consultor técnico de algumas coudelarias de referência em Portugal (Casa Cadaval e Quinta da Lagoalva, entre outras).


 

Desde já agradeço ao Francisco Cancella de Abreu (entrevista publicada na coluna à sua direita) e ao Bento Castelhano, a disponibilidade com que ambos se voluntariaram a dar nas resposta às perguntas que lhes remeti, que seguramente vão ao encontro do esclarecimento de quem vivencia a Raça Puro Sangue Lusitano em todo o seu Potencial.

 


 

 

1. Fazendo uma retrospectiva da evolução da raça e tendo em consideração que o aparecimento de cavalos de grande importância se têm mantido com um certo espaçamento (Firme, Novilheiro, Guiso, Peralta), quais as diferenças mais importantes que tem sentido em termos de montabilidade, mecânica de andamentos e força, entre os animais do passado e os do presente?


 

BC – Desde os meus primeiros contactos com a Raça, regra geral, os parâmetros referidos evoluíram positivamente.

 

Na opinião dos alemães os cavalos são o produto de três lados de um triângulo: 1/3 referente à sua genética; 1/3 ao maneio de cria (alimentação/crescimento) e o último 1/3 no trabalho e treino a que são sujeitos. Como zootécnico e cavaleiro revejo-me nesta imagem, onde a falha de um dos “lados” provoca desequilíbrios no produto final.


 

As condições edafoclimáticas nacionais não são muito favoráveis à criação cavalar, pelo que cabe ao criador, por via da técnica (maneio – alimentação, desparasitações, suplementos, etc.), suprimir muitas das lacunas que o meio ambiente deixou em aberto.

 

Na “linguagem” genética, o actual esquema de avaliação de reprodutores do Livro Genealógico, encontra-se desfasado das necessidades do mercado e, consequentemente, das de criação.


Portugal não compreendeu ainda, que tem de ser a finalidade (modalidades/mercado) a ditar os objectivos de criação/selecção. Neste sentido, as entidades responsáveis pelas modalidades (Federações Equestres, etc.) têm de articular o seu trabalho, necessariamente em contínuo, com as Associações de Criadores.

 

A pequena evolução constatada na montabilidade, locomoção e força, deveu-se exclusivamente aos concursos de Modelo e Andamentos e ao labor de um grupo restrito de criadores, despertos para o cavalo funcional. Não podemos minimizar o papel dos concursos de Modelo e Andamentos na evolução da Raça, uma vez que constituiu, na falta de outros indicadores, uma das “únicas” ferramentas de revelação de potencial desportivo.


 

Só mais recentemente a valorização funcional dos nossos cavalos, numa perspectiva do moderno cavalo de desporto, se tem pulverizado e subido de nível, numa importante e crescente espiral de participações de relevo, em modalidades desportivas de projecção universal, anteriormente “vedadas” ao estereótipo do cavalo Barroco.


 

Ainda na história da evolução da Raça, temos assistido, nos últimos anos, ao posicionamento dos nossos Lusitanos como animais de referência no mundo da tauromaquia.


 

Apesar de todo deste sucesso não podemos esquecer, ainda no âmbito da valorização funcional/avaliação genética da Raça, que continuamos longe do desenvolvimento técnico-científico alcançado nos países de referência da criação do cavalo de sela.

 

A nossa tradicional falta de sistematização e forma de estar, têm provocado endémicas assimetrias nos “lados do triângulo”, com nefastas perdas de muitos dos cavalos que, bem acompanhados, poderiam ser tão ou mais notáveis que aqueles que enumerou, mas que assim acabam por passar a sua vida útil no anonimato, muitas das vezes com “rótulos” perfeitamente injustos.


 

Apesar de numa perspectiva zootécnica, o Regulamento do Livro Genealógico não servir os interesses da Raça, há que reconhecer o trabalho meritório da APSL na promoção do Raça. Facto este, facilmente comprovado pelo crescente aumento da procura.


 

Lamentavelmente este trabalho não tem sido acompanhado de acções de melhoramento genético e tratamento estatístico. A importância da estatística, destrinça a aparência (fenótipo) do que efectivamente tem peso genético – a avaliação genética. O efeito comparativo desta avaliação, por via parental (comparativo entre ascendentes, colaterais e descendentes), só aporta resultados à escala da Raça e não à escala do criador.


 

A internacionalização da Raça iniciou-se pelas “mãos” do trabalho do Eng.º Fernando Sommer D’Andrade e do Mestre Nuno Oliveira. Contudo, o contexto da Raça e dos seus criadores alterou-se profundamente nos últimos 30 anos. O cavalo ancestral do sul da Península Ibérica, considerado um cavalo de guerra (da “Gineta”), com variantes artísticas, e fruto de uma criação em condições de estrema pobreza, teve de acompanhar a evolução dos tempos.


 

A própria internacionalização da Raça ditou a alteração das condições de cria e também o objectivo funcional dos Lusitanos. Repare-se que hoje em dia, até a utilização mais tradicional do nosso cavalo, o toureio, se transformou numa arte recriada de forma completamente diferente do passado.

 

No passado (30 ou 40 anos) a grande maioria dos criadores eram igualmente utilizadores. Recentemente surgiram criadores que não utilizam os seus produtos, e que de uma forma pouco sustentada e distante, multiplicam famílias ou linhas baseados em “cassetes” de propaganda, bem arquitectada, mas vazia de conteúdo funcional.


 

Neste contexto têm muita dificuldade em aferir um padrão de qualidade que lhes permita, quando confrontados com as faltas dos seus produtos, colocarem em causa o único referencial existente – as avaliações oficiais – que norteou estas faltas.

 

O mercado exige um criador esclarecido e informado, com lucidez para seleccionar cada vez melhor, tentando produzir para o mercado da utilização, em alternativa à infrutífera tirania da estética.


 

É urgente e de grande utilidade que os criadores se apercebam das vantagens da reintrodução das provas morfo-muncionais, num formato moderno e adequado, distante do antigo e hoje inviável formato organizacional do Estado Português. É facilmente entendível por qualquer chefia, inclusive a pública, que o horário rígido do actual funcionário público (09h às 17h), exercido em dias úteis, pouco se compadece com o esforço de trabalho exigido em provas deste tipo. A colaboração pública pode restringir-se à cedência temporária (por um muito breve espaço de tempo) das suas instalações e terrenos limítrofes (campo de provas).


 

Esta testagem precoce, em acumulação com a avaliação dos resultados da carreira desportiva, para além de permitir uma antecipação de resultados individuais, permitirá igualmente o acesso a uma forma de testagem estendível a todos aqueles que não tem meios financeiros para a valorização dos seus animais por via de uma carreira desportiva.


 

Com um tal sistema valoriza-se os animais de qualidade efectiva, de uma forma rigorosamente objectiva, sem influência de “cassetes” de propaganda, sabendo-se exactamente o valor genético de cada reprodutor, para o seu objectivo de selecção. Desta forma os bons criadores destacar-se-iam sempre!

 


 

2. Das três características anteriormente referidas como as classificaria por ordem de importância e porquê?


 

BC – Antes da resposta e apenas sobre a montabilidade, classificá-la-ia em três niveis:

a) os cavalos que “não gostam” de ser montados: eventualmente animais de grande importância na Natureza para a preservação da espécie no seu estado selvagem, dado o seu elevado grau de capacidade de defesa;

b) os cavalos facilmente domesticáveis e, normalmente, sem grande capacidade atlética (agilidade, resistência, exuberância de movimentos, etc);

c) cavalos com forte caracter e atleticidade, que normalmente exigem melhores cavaleiros, mas que também são os de grande potencial funcional, independentemente da disciplina.


 

Pela equitação conseguem-se muitas vezes mudar os cavalos de nível. Também verifico, infelizmente com muita frequência, que o mau trabalho destrói cavalos para sempre.


Em termos equestres, será difícil um cavalo ter boa Locomoção sem Força. Há cavalos que sem o cavaleiro mostram bons andamentos, mas que, uma vez montados, empregam os seus esforços apenas nas defesas. São os do tipo “a”.


Na equitação a Força tem de ser útil, pois quando vem dissociada da montabilidade não tem qualquer interesse.

 

Uma vez que a Equitação pode melhorar a Mecânica de Andamentos e a Força, em selecção dou sempre o previlégio à Montabilidade. Nos machos exigo que sejam sistemáticamente do grupo “c”, preferindo no desbaste das fémeas as “c”, mas admitindo “b”.


 

Na Raça impõem-se estudos sobre as Correlações Genéticas, que eliminem ou concretizem sensações como as minhas.


Eventualmente poderemos estar a entrar em incompatibilidades na selecção. Por exemplo, em Hannover estudou-se e sabe-se que a Capacidade Saltadora tem correlação genética negativa com a Qualidade do Passo; quando se melhora o Salto piora-se o Passo e vice-versa.

 

Conclusão: Montabilidade, Mecânica de Andamentos e Força.

 


 

 

3. As recentes revelações da origem do Firme podem ser encaradas de duas formas, a primeira de acordo com uma perspectiva purista na qual a imagem da raça milenar sofreu um ataque à sua imagem e credibilidade, a segunda é pragmática e encara a raça como um tronco ibérico associado à história , modas, defeitos e virtudes do povo da ibéria. Na sua opinião, qual o enquadramento desta revelação face a uma raça que definitivamente é o espelho de todos aqueles que a construiram?


 

BC – Tive recentemente a oportunidade de conversar com o Sr. Arq.º Arsénio Raposo Cordeiro sobre este tema. Ele explicou-me, porque esteve envolvido no assunto, o motivo de o Lusitano também se chamar Puro Sangue: originalmente haviam somente dois tipos de cavalos: os de Sela ou de Sangue Quente, também designados Puros Sangue e os de Tiro, pesados, ou Sangue Frio. Dos cruzamentos destes dois tipos de cavalos nasceram os animais das raças de desporto modernas, os Warmbloods. Como o Lusitano é, indiscutivelmente uma raça de sela das mais antigas no Mundo, na sua designação ter-se-à então incluido o termo Puro Sangue, sem que daí se devesse concluir que a Raça não tinha, ao longo da sua génese, sofrido introduções ou influências de outras raças.

Recordo que tentei transmitir uma informação, o mais fielmente que fui capaz. Mas penso que, nesta ordem de ideias, o Puro Sangue tem pleno cabimento!


 

Em Portugal perdemos demasiado tempo a discutir se “chegou primeiro a galinha ou o ovo”. Todos sabemos que a constituição do Livro Genealógico com a Inscrição de Animais a Titulo Inicial é muito recente, 1967. A definição do Padrão da Raça deu o “Norte” de quais as características a manter/desenvolver e quais a eliminar, mas a “salada” inicial, apesar de ter animais parecidos ao Estalão, tinha também muitas influências externas.


Mesmo se considerarmos a História do Nosso País, as influencias têm de ser enormes: os Àrabes passaram cá muitos anos e nunca deixaram cavalos? Eram Orientais? Eram Berberes? Os Franceses nas invasões não deixaram nada? Nos animais que permutamos com Espanha na época do Peninsular todos os registos eram exactos? Antes dos registos genealógicos nos equinos nunca se introduziram outras raças?

E esta discussão? Em termos zootécnicos para que serve?


 

Sei, contudo, que num estudo do Prof. Artur Câmara Machado/Universidade dos Açores/Serviço Nacional Coudélico, sobre linhas maternas em ADN- Mitocondreal se encontraram características moleculares que eram únicas na Raça Lusitana, provavelmente oriundas da época da domesticação. Esta sim poderia ser uma investigação/divulgação interessante. Mas parece que essas linhas maternas nunca passaram da fase “chave cega” e que o segredo acabou na mão de quem deixou de gerir o extinto Serviço Nacional Coudélico.


Parece-me mais um caso tipicamente português em que discutimos apaixonadamente o estéril e ignoramos o produtivo…

 

As recentes revelações são o exemplo do que acabo de afirmar: a égua Segura ser descendente de Lipizanos Hispano-Árabes e da Égua do Soldado na éguada da “Cartuja”, são o material de que a Raça foi feita. Não percebo bem qual é a revelação? Afinal foi ficar relativamente documentado o que já sabíamos?

 

Sobre a Credibilidade há um aspecto em que gostaría de me manifestar.


Quando falamos de registos a título inicial, compreendo que se tenha recorrido ao material existente, mas, depois de serem instituidas regras de certificação de qualidade no controlo de filiação, quem rompe essas regras, seja com que raça seja, tem de ser exemplarmente punido. A regra do Livro Genealógico fechado está em vigor e essa credibilidade não pode ser rompida! O fundamental é a credibilidade nos registos e em quem os gere, sendo a sua desacreditação gravíssima.


Quando, se se entender, abrir o Livro para a introdução de certas características, isso terá de ser balizado, documentado e divulgado, nunca feito “à sucapa por uma meia dúzia de espertalhões”.


As regras têm peso de lei e são para todos!

 


 

 

 

4. Nos obstáculos o acto de ultrapassar o obstáculo determina o mérito, no caso do Lusitano as provas morfo-funcionais podem ser encaradas como uma forma de objectivar a diferenciação?


 

BC – Na minha resposta à sua 1ª questão já respondi, em parte, a esta pergunta.


 

A Raça carece da definição urgente de objectivos de selecção. A selecção para o cavalo polivalente é um absurdo zootécnico!


Se eu disser que vou seleccionar Vacas Mertolengas pelo Padrão Racial e que dos produtos, as melhores leiteiras poderão competir com as Frisien exploradas em regime intensivo, todos dirão que estou louco.


Pois o mesmo está a ser feito com os cavalos lusitanos!


Seleccionar para muitas características é caro e ineficaz! E não sou eu que o digo! É das leis da Biologia que a Raça, com todas as suas virtudes, não consegue superar.


Neste sentido, deveriam existir tantas linhas como os objectivos: Dressage, Toureio, Equitação de Trabalho, Modelo e Andamentos, etc.

Esta diversidade de objectivos permitiria uma muito maior objectividade e resultados na selecção, assim como ter a Raça (no conjunto das suas linhas) muito melhor catalogada. Desta forma, no caso de alguma linha ter de recuperar caracteristicas seria fácil e sem sequer deixar a Raça.


Todos estamos de acordo que o mercado do cavalo para a Dressage é aliciante, mas não sabemos exactamente, se seleccionarmos somente neste sentido (andamentos mais amplos, mais suspensão, etc), o que acontecerá a longo prazo às características de montabilidade nos exercícios de reunião. A manutenção de linhas performantes em utilizações tradicionais é então da maior importância, isto, claro em Portugal, mas em especial no Estrangeiro.


 

O importante será estudar a Prova Morfo-Funcional (medir qual a morfologia e a prestação funcional) que potencia a selecção de cada objectivo e associar ao estudo as performances da carreira ao longo da vida do animal, conforme a linha onde ele se insere.


Não acredito, mas poderemos até chegar à conclusão que somente um objectivo é suficiente à Raça! Nessa altura a decisão sobre um objectivo comum será legítimo!

 


 

 

 

5. Foi-me transmitido por um cavaleiro que montou lusitanos na Alemanha que a capacidade de resistência ao esforço dos warmbloods ultrapassa substancialmente a dos lusitanos. Segundo o Eng.º Fernando D’Andrade, relativamente às provas morfo-funcionais praticadas na EZN (1934-1973), a prova de estrada (moderno raid) servia para avaliar a capacidade de resistência, e na corrida plana, a generosidade perante o esforço. Actualmente e na sua opinião qual a melhor forma de avaliar a resistência ao esforço?


 

BC – Um cavalo que aguentasse estas provas seria sempre um animal atlético, resistente e generoso assim como as apreciações do Eng.º F. D’Andrade tecidas sobre o tema, oportunas.


 

Estas provas (EZN/Dr Monteiro) que foram usadas com sucesso no passado, deveriam servir de base para estudar e optimizar em cada objectivo de selecção da Raça as diferentes provas que melhor se adaptassem ao desenvolvimento da capacidade atlética de cada especialidade.


Mais uma vez o estudo das correlações genéticas se mostra fundamental para sabermos que características arrastamos quando seleccionamos outras.

 

O fundamental não é termos provas, mas sim termos formas de medir características relacionadas com o nosso objectivo concreto de selecção.

 


 

 

6. Qual a sua perspectiva da polivalência da raça quando existe uma corrente de opinião em Portugal e no Mundo que defende que muitos dos cavalos que colaboram com prestações médias em modalidades distintas, acabam por nunca atingir a excelência em nenhuma, qual a sua opinião relativamente a esta posição?


 

 

Estou completamente de acordo com essa corrente de opinião.


Seleccionar para muitos parâmetros (polivalência) é caro e proprciona fracos progressos genéticos (prestações médias). A Raça não consegue superar este axioma da Biologia!


 

Temos de caminhar no sentido de criar diferentes linhas especializadas (cada uma com diferente objectivo de selecção) dentro da Raça Lusitana. Os mercados, especialmente os do desporto (dressage, atrelagem, equitação de trabalho, etc) são muito exigentes na especialização. Compra-se garantia de performance e isso é selecção por especialidade.


Penso, contudo, que uma das especializações deve continuar a ser a do Modelo e Andamentos, no aperfeiçoamento do Cavalo de Tipo Barroco. Não tenho dúvidas que este é um dos mercados da Raça e que devemos continuar a produzir para tal. Devemos também assumir claramente a posição de que essa linha passará a produzir cavalos de exposição, na busca de um determinado padrão racial, sem que isso necessáriamente tenha que arrastar boas ou más características funcionais.


Com isto, também não quero dizer que os produtos desta linha serão incapazes funcionalmente. Penso até que, se alguma vez se implementar algo parecido, a permuta de animais entre distintas linhas será saudável e fiável dado o preconizado controlo dos registos dentro da Raça.

 


 

7. A competição até uma idade avançada implica cuidados acrescidos com a durabilidade. Qual a sua opinião técnica acerca dos cuidados a ter neste campo, na escolha dos multiplicadores (os reprodutores), uma vez que estão em causa questões ligadas às heritabilidades?


 

BC – Todas as características estão ligadas às heritabilidades!


O problema é que poucos têm consciência disso!


Numa forma empírica, a heritabilidade mede a facilidade de transmitir uma característica da geração progenitora à descendência. A sua determinação exige rigor e o parâmetro varia consoante o “ambiente” em que é medido.


Exemplificando, seguramente que a altura ao garrote aos 1,5 anos de idade em lusitanos criados no Ribatejo e no Kentuky terão heritabilidades distintas.

 

Para as características ligadas à durabilidade, será fundamental estudar a Raça, distinguindo, como dissemos antes, fenótipo de genótipo e aínda, o determinismo, naquilo que se relaciona com o aparelho locomotor, respiratório e cardíaco.


Não podemos simplesmente importar resultados de análises de radiografias, ou outros feitos validados noutras raças. Corremos o risco de estar a eliminar animais que, no nosso caso, por outras características poderiam ser importantes manter e, afinal, a sua exclusão não melhora a durabilidade. Ou, o contrário, a permitir animais que no nosso caso seriam de eliminar.


 

Um outro aspecto que é uma constante falha das propostas de selecção na Raça é a dicotomia entre os critérios do lado masculino e feminino.

Também na durabilidade apenas se ouve falar em radiografar exclusivamente os candidatos a garanhões. Então e nas éguas? Tudo pode continuar uma incógnita?


 

Será importante divulgar que a actual Direcção da APSL, durante o seu 1º mandato, ficou na posse de uma proposta elaborada por um grupo de trabalho (Dr.ª Elisa Bettencourt, Prof. Artur Machado, Prof. Tello da Gama, Dr. Núncio Fragoso, Dr. Costa Pereira e eu próprio)que respondia exactamente a esta questão: como estudar a durabilidade na raça para selecionar este parâmetro nos seus vários componentes na forma mais eficaz.

 


 

 

8. Qual a melhor forma de avaliar a montabilidade e o temperamento? Poderão estes dois critérios desculpar alguns defeitos de morfologia?

Ainda a este propósito considera, à luz do Padrão da Raça, que um dorso pode ser avaliado desligado da mecânica de andamentos?

 

 

BC – Tal como sobre os restantes parâmetros, tenho apenas a minha opinião e urge investigar para saber a melhor forma de seleccionar.

Se seleccionarmos pelos resultados desportivos ou de performance (caso do concurso do melhor Lusitano de Toureio do ano APSL) estaremos seguramente a medir montabilidade. O inconveniente deste sistema é que a recolha dos resultados é demorada e, portanto, aumenta o Intervalo entre Gerações, o que reduz o Progresso Genético.


Nos criadores com que trabalho, promovo que se registem em fichas muito simples, os resultados de cada contacto com os animais: reacções ao arreatar à desmama, às primeiras vezes à guia, ao aperto da cilha, ao montar, às rédeas fixas, etc. Tenho verificado, especialmente quando se consegue manter a mesma equipa de equitadores, que os resultados são bastante rápidos e que geralmente estas características vão juntas: deixar-se montar, arreatar, fácil contacto às rédeas fixas, etc.


 

Não sei responder se a montabilidade pode desculpar defeitos físicos. Os animais que seguimos mais atentamente nos registos de maneio e montabilidade são os candidatos a reprodutores, machos ou fémeas e nesta classe apenas entram animais que consideramos melhoradores do efectivo em termos de modelo e andamentos naturais. O maneio dos restantes animais serve-nos, exclusivamente, para avaliação dos seus progenitores.


 

No sistema actual, a avaliação dos animais é qualitativa, tanto em concurso como na admissão ao Livro de Adultos. O importante será então que este trabalho produza informação para os criadores pela utilização da escala de avaliação.


Quando comecei, com pessoas como o Sr. Dr. Borba, aprendi que só se avaliam todos os diferentes parâmetros após a análise dos andamentos e que se não corrermos toda escala, conforme a qualidade que temos diante, então não produziremos informação.

 

Em reuniões de aferição de critérios explicou-se que:

10 = Perfeito

9 = Muito Bom

8 = Bom

7 = Suficiente

6 = Insuficiente

5 = Medíocre

4 = Mau

 

Em admissão ao Livro de Adultos uma nota de 4 ou duas de 5 implicam a reprovação.


 

Pelo conceito que aprendi e sempre apliquei, uma espádua, além de inclinada e comprida, se não funcionava não passava de 7, ou uma espádua sem grande conformação, mas que era solta a passo e a trote poderia ter um 8. Dei muitos 7 a membros menos bem conformados, mas que não limitavam andamentos de nota 8 ou até 9…


O mesmo acontece com um dorso e rim. É frequente observarmos animais muito correctos para o padrão mas rígidos no movimento, ou o oposto, dorsos mergulhantes, mas passos usando o corpo, transpistando-se, com facilidade para a reunião e para manter um andamento.

Penso que estes até foram alguns dos motivos para a grande disparidade das minhas notas para as dos restantes juízes: vontade de produzir informação de interesse zootécnico.


Estou convencido que fui sistemáticamente mal compreendido e, para muitos, corrupto. O não me importa minimamente dado que nunca houve ninguém capaz de mo dizer frontalmente e nunca ninguém será capaz de o provar, simplesmente porque nunca fui nem serei corrupto!


Para terminar de responder à sua questão, penso que num sistema como o Holandês, ou como o dos Lipizanos, com medidas exactas das regiões (comprimentos e ângulos), ambos descritivos da morfologia, a avaliação deve ser independente do movimento. Só desta forma (independência da descrição da região daquela que descreve os diferentes andamentos) se poderá estudar a conformação que melhor serve os andamentos e a performance. Qualquer destes dois sistemas seria o que eu preconizaria para a Raça Lusitana.

 


 

 

 

9. Relativamente à questão dos membros, atendendo à baixa heritabilidade desta característica e ao facto da Raça ser fechada, como perspectiva em termos técnicos a evolução da Raça?


 

BC – As heritabilidades não estão estudadas na Raça Lusitana.

O único estudo que conheço sobre esse tema é do Dr Christman em Hanoverianos onde, efectivamente, a heritabilidade é baixa.


Acompanhei muito poucas avaliações de modelo e andamentos de animais de desporto no estrangeiro (Holanda, final dos garanhões de 4 anos Dressage e Cavalo de Desporto da África do Sul), mas verifiquei sistemáticamente que esses juízes eram profundos conhecedores, mas muito menos severos que nós na avaliação dos membros.


Penso que no Lusitano temos estado sempre prontos para identificar os defeitos, mas nem sempre nos preocupámos em ponderar as virtudes. Também para os membros!


Com isto quero dizer que os membros deverão ser parte da maior preocupação de selecção de qualquer criador. Mas que, sem sair da Raça, há por onde escolher! O importante nos membros, como nas restantes regiões, é que se produza trabalho performante por muito tempo!

 


 

 

10. Considera importante a selecção pelo toureio na construção do cavalo ganhador, sobretudo ao nivel da moral?


 

BC – Já o disse antes nas respostas, que as utilizações tradicionais terão de ser objectivos fundamentais a preservar e fomentar/desenvolver na Raça. O Toureio antes das demais!


Recordo que, na minha opinião, deverão existir é vários objectivos de selecção.


 

Não quero deixar de registar que tenho verificado que no toureio actual, onde se encurtaram muito as distâncias, onde se busca a espetacularidade na cara do toiro e o cavalo especialista num “número”, nem sempre os cavalos performantes são os de melhor moral para outras disciplinas. Este aspecto é actualmente muito diferente do que encontávamos na Raça há 20 anos.


Penso mesmo que muitos cavalos especialistas do actual toureio não são correctos na sua locomoção.


Quando foi criada a actual grelha para avaliação do Melhor Lusitano de Toureio do Ano, eu era Secretário Técnico e sugeri que os animais inscritos fossem avaliados pela comissão de juízes da Raça, o que fornecería elementos de extremo interesse para a selecção para o toureio. Nunca consegui o intuito!



 

 

11. Recentemente ouvi um comentário que reflectia um certo preconceito na aceitação de cavalos de determinadas cores na disciplina de dressage, refiro-me a título de exemplo na aceitação de um atleta de cor baio. Existirá preconceito na modalidade relativamente à avaliação de cavalos de cores diferentes das dominantes na Alemanha (país de referência na dressage)? Extrapolando será visto da mesma forma que um bancário que decide ir trabalhar de fato amarelo?


 

 

O meu conhecimento da modalidade Dressage é muito recente. Do que tenho acompanhado, a mentalidade dos Juízes Internacionais e Treinadores é muitíssimo aberta e congregadora. Não os reconhecería em tais atitudes!


Contudo, como em tudo, também já verifiquei (até “na pele”), que há muitos juízes de dressage “quadrados”, para os quais, tudo o que saia do seu tradicional é para erradicar.


As recentes correntes de formação de juízes são extremamente abertas na procura da performance conseguida por meio do “happy athlete”, muito receptivas ao cavalo ibérico.

 


 

 

12. Qual deverá ser o impacto desta perspectiva na orientação de uma coudelaria vocacionada para a dressage?


 

A preocupação dos criadores deverá ser produzuir para o mercado que consome em volume, também nas pelagens.


 

Na Alemanha e Holanda, os concursos regionais pulverizam todo o território com provas de todos os níveis e participação muito barata. A grande parte dos participantes são amadores que vão com uma estrutura mínima. O seu objectivo é competir muitas vezes. Como são os próprios, ou pouco mais que isso, a garantir o tratamento dos cavalos, é importante que tenham pelagens fáceis de manter e apresentar.


As pelagens claras serão, para situações semelhantes, problemáticas.


 

Creio que as limitações vêm mais por este lado que pelos juízes, especialmente pelos internacionais!

 

 


 

 

 

 

Comentário final:

Muito me apraz oferecer o meu contributo a uma pessoa como o Rodrigo, que tem, abnegadamente, estudado o Lusitano e em todas as oportunidades possíveis, disponibilizando a toda a comunidade as suas conclusões!

 

9 thoughts on “Fórum do conhecimento

  1. Diogo Mayer (filho)

    Parabéns pela dinâmica e iniciativa bem patentes neste blog. Os artigos que tem vindo a colocar são de uma grande utilidade, e deviam ser de leitura obrigatória para todos os criadores. Deixo a sugestão de se debater a fundo a aplicação do modelo ” Linear Scoring” (avaliação linear), que tenho vindo a estudar e já estamos a aplicar na nossa coudelaria, através de uma base de dados dinâmica. (à semelhança da Herdade das Figueiras)

    Responder
  2. Paula da Silva

    Parabens seja ao entrevistador que ao entrevistado.

    E’ raro ler algo sobre o Lusitano que và em profundidade desta maneira, sem receio algum de entrar em assuntos que podem doer (ou nao).
    Bem, mais uma vez PARABENS!
    Vou divulgar, merece.

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  3. Samuel Gameiro

    Parabens pela entrevista!
    Uma explicação objectiva e real para problemas e soluções da raça! É pena muitos criadores não aproveitarem as grandes qualidades de conhecimento equino e não só de uma pessoa como o sr. Francsico Cancela de abreu. Só a raça tem a perder.

    Responder
  4. JOÃO LYNCE

    Parabéns aos dois, é bom sentir que há quem se interresse por este tema tão importante e que possa ser abordado de uma forma transparente. Infelizmente ainda há muitos “velhos do Restelo”, no nosso “mundilho”.
    Bem hajam.

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  5. Nélio Carrara

    Excelente entrevista!

    O Sr. Francisco Cancela de Abreu foi muito correto ao falar da criação, das virtudes e defeitos do cavalo Lusitano.
    A transparência e o profissionalismo serão necessários para a evolução desta nobre raça.
    Afinal de contas, onde querem chegar os tradicionalistas??

    Responder
  6. Sergio Beck

    Excelente, como era de se esperar, seja pelo entrevistador seja pelo entrevistado. Parabéns. Assim se evolui uma raça. Lusitanisticamente, Sergio Beck.

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  7. Carla Coimbra

    Como sempre esta entrevista evidencia a pessoa culta e com amplitude de visão estratégica que é caracterizado pelos amigos o Francisco. Muita pena minha que viva em Espanha e que em Portugal não continue a ser sempre “figura de cartaz” para todos os eventos foruns e coloquios e afins.
    Acredito que a sua natureza transparente trará sempre bons resultados a quem o souber ouvir e “digerir” tão astutos comentários.
    Se não se conseguir evoluir muito na raça por obstáculos diversos ao menos que se monte mais e melhor!
    Obrigada por todos os estágios com que me privilegia uma vez por mês na Sociedade Hípica Portuguesa.

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  8. Frederico Bonacho

    A entrevista não me surpreendeu em nada!!! Simplesmente pela categoria técnica, que, de forma inquestionavel, é publicamente reconhecida ao entrevistado, e pela grande classe intelectual e ética que, graças a Deus, tenho o prazer de conhecer do entrevistador!!! Penso que o caminho é este. O de promover a verdade e a discussão civilizada de um tema tão grato, para que AVANCEMOS. Há que ser assim, meus amigos. Nobreza de espirito e de conduta, tal como acontece com os nossos Lusitanos!!! Faz falta a muita gente com cargos de responsabilidade!! E tambem, por osmose, a outras tantas entidades publicas e privadas!!! Tudo temos que fazer para mudar as mentalidades viciadas e retrógadas instaladas, e para que assim, os nossos filhos tenham uma melhor herança que aquela que, lamentavelmente, a este respeito, a nós nos coube!! Um abraço de gratidão e reconhecimento para os dois!!

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  9. Claudia

    Caro Rodrigo,
    parabéns pela entrevista e pelo blog, que ora visito pela primeira vez. O conteúdo e as idéias servem para muitos países e muitas raças cavalares, não apenas para o cavalo Lusitano em Portugal… enxerguei a situação brasileira, cultura equestre e tudo, numa variedade de situações e comentários pontuados nesta entrevista.
    Conte com a minha divulgação!
    Abraços, sucesso sempre,
    Claudia

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