O Mérito e a sua necessidade

Por Rodrigo Coelho de Almeida

 Lique CN 2  Lique CN - Jenifer HalroydLique CN 3

 

 

 

 

 

Lique CN (Jenifer Halroyd) – nasc. 05/02/1969 – 1,64m – Pt. 80,0

 

I.      Nota de abertura

Antes de entrar no assunto em causa, friso a importância da agregação de esforços de todos os criadores, cavaleiros e proprietários (espelhados na Associação que promove os destinos da raça, a APSL – Associação de Criadores do Cavalo Puro-Sangue Lusitano ), para esta causa que tem de ser comum.

O conceito implícito nesta exposição, referente à necessidade de implementação de provas morfo-funcionais, vai ao encontro dos modelos de testes que eram praticados na Estação Zootécnica Nacional, no período de 1934 a 1973, bem como o da actual testagem de cavalos novos praticada noutros pontos do Globo.

Pretendo com esta exposição perspectivar um contributo que vai ao encontro de muitas das expectativas dos criadores e compradores, na melhoria da projecção da raça no mundo.

 

II.    Introdução

A necessidade de objectivação e a importância da selecção pela função remetem-nos para o conceito de animal performante. Neste formato de avaliação surge-nos no topo da pirâmide (em termos de importância), as classificações inerentes a uma carreira desportiva. Esta é uma das faces desta realidade, sem dúvida a que representa mais visibilidade, sustentabilidade e projecção de qualquer Raça no mundo.

Não nos podemos esquecer que a realidade média do criador/proprietário português é limitada em recursos financeiros/contactos, que permitam o patrocinio de uma carreira desportiva, ou que garantam a visibilidade necessária a um correcto encaminhamento do seu animal – a chamada “boa venda”. Dentro deste contexto surge uma preocupação acrescida, de institucionalizar e estender esta visibilidade (degrau de acesso a uma carreira desportiva), ao maior número possível de animais pertencentes a criadores/proprietários.

As provas morfo-funcionais devem servir de “trampolim” de acesso a carreiras desportivas. Porquê? Porque conferem essa visibilidade; porque credibilizam a descoberta de novos talentos; porque permitem aos animais que por tradição nunca apareciam, passarem a ter uma oportunidade. Com isto fornece-se aos compradores uma “ferramenta” fiável na detecção dos futuros “crack’s” (vital também na procura de patrocínios para os conjuntos).

Todos os criadores, recriadores e proprietários passam a aderir a uma possibilidade de aumento da receita, por mérito do objecto de investimento.

Estas provas respondem também à necessidade de verificação do nível de resistência ao esforço (da generalidade dos indivíduos que constituem a raça). A avaliação neste domínio, permitirá à raça afunilar a selecção na direcção da resistência e atleticidade, existente noutras raças (um verdadeiro TPC – neste caso “trabalho em casa”). A pressão de selecção, aplicada por via das provas morfo-funcionais, condicionará uma diminuição (na raça) do risco de “apagão” físico/moral (stress em prova), em momentos chave de grande visibilidade (concursos Internacionais ou Nacionais – em que o cavaleiro tem de gerir com maestria o dispêndio de energia do seu Lusitano, para que este não perca o brilhantismo necessário à conquista de pontos).

Tratar estatisticamente os resultados das provas morfo-funcionais, relacionando-os com os resultados da descendência, colaterais e ascendentes, permitirá verificar o nível de determinismo genético (transmissibilidade) dos vários parâmetros avaliados. É este trabalho de “formiga” que permite a “magia” que espanta a generalidade das nossas gentes, quando um alemão ou holandês descreve as características de um cavalo apenas com base no conhecimento dos seus ascendentes (sem nunca o terem visto).

Determinar a correlação indivíduo/função é essencial para o esclarecimento dos criadores, relativamente aos acréscimos de performance que um Garanhão ou Égua podem aportar à sua descendência, nas várias vertentes avaliadas.

Uma vez que existe um reconhecido sucesso funcional, das antigas provas ministradas na Estação Zootécnica Nacional (EZN – 1937-1973), seria de grande utilidade o aproveitamento desta vivência. Para tal deverá ser equacionado um trabalho de adaptação, adequado aos objectivos desportivos do presente.

 

III.  Justificativo

Os testes devem constituir uma ferramenta vital de apoio à decisão do criador na escolha dos garanhões a utilizar nas suas éguas, bem como uma ajuda preciosa ao comprador que pretenda adquirir um animal de alto valor performante. O princípio que norteia a existência destes testes é o da meritocracia, apoiada num sistema transparente e credível, que permitirá aos criadores perceberem objectivamente o tipo de animais (aptidão desportiva; nível de resistência ao esforço; qualidade performante) que estão a criar. Estas provas credibilizarão toda a fileira pela sua componente puramente objectiva, em oposição aos efeitos nefastos da subjectividade, hoje em dia tão bem aproveitada na construção de cassetes de propaganda a determinados cavalos, que apenas são excelentes na voz do seu proprietário (nunca entram em provas e estão repletos de boas desculpas para nunca competirem – ou está com um problema na boca, ou se aleijou ao descarregar, etc.).

Estas provas devem existir para que:

  1. Exista possibilidade de democratização do acesso à generalidade dos criadores, a um formato de certificação objectiva, performante, e economicamente aliciante, pelo baixo custo envolvido, comparativamente com os custos avultados inerentes à opção de financiamento de uma carreira desportiva (inacessível – por motivos económicos – à generalidade dos criadores);
  2. Funcionem como ferramenta de descoberta antecipada do valor genético dos reprodutores, contrariando as situações de descoberta de Garanhões com elevado valor genético, apenas em fim de vida (como aconteceu com o Nilo MV);
  3. Exista informação para a determinação do valor genético dos animais e da sua família (colaterais e ascendentes), permitindo a aplicação do BLUP modelo animal;
  4. Se possa antecipar a descoberta de animais com talento para o desporto e direccionar essa aptidão de uma forma expedita;
  5. Exista uma ferramenta de aceleramento do progresso genético da raça, por via de uma pressão de selecção elevada;
  6. Haja um conhecimento real das heritabilidades referentes aos parâmetros avaliados nas provas. O conhecimento dos parâmetros com elevadas heritabilidades possibilitará uma boa gestão de custos (apenas tem interesse gastar dinheiro na avaliação de parâmetros com elevadas heritabilidades – eficiência económica e técnica – devendo-se afastar parâmetros de baixa heritabilidade);
  7. Estas provas possibilitem uma correlação positiva com futuras performances em competição.

 

IV. Breve resenha histórica das provas (com resultados)

Estes apontamentos foram retirados do II Congresso Nacional de Medicina Veterinária – Dr. José Monteiro e Dr. António P. Lino Neto – Novembro de 1983.

Em 1970 o Dr. Monteiro afirmava: “a genealogia indica-nos o que o cavalo deve ser, a morfologia o que o cavalo pode ser, mas só a prova funcional revela o que o cavalo é de facto”.

Nos primeiros anos das provas os cavalos espanhóis importados obtinham resultados semelhantes aos dos Lusitanos da Coudelaria Nacional.

Histórico das provas:

  • Assim, em 1935 a corrida de obstáculos foi ganha pelo “Cartujano”, espanhol, a 639 m/min. Logo seguido pelo “Temudo”, Lusitano CN, a 635 m/min;
  • Em 1959 ainda o “Jamonero”, espanhol importado, ganha o corta-mato a 558 m/min., mas foi este o último cavalo espanhol a destacar-se. Neste mesmo ano fica em último lugar no corta-mato o “Indiano”, espanhol importado, a 409 m/min; os outros dois espanhóis importados – “Labrador” e “Zaragozano” – ficam em lugares intermédios; na corrida plana ficam os quatro em lugares intermédios;
  • Em 1962 o espanhol “Canelo” fica em último lugar no corta-mato a 461 m/min. O qual foi ganho pelo “Valoroso” CN, a 674 m/min. Também na corrida ficou em último lugar a 627 m/min., sendo o “Valoroso” o primeiro a 683 m/min;
  • Em 1968 fazem provas os espanhóis “Ingénito” e “Inato”; no corta-mato ocuparam os dois últimos lugares a 540 m/min. e 486 m/min.. Respectivamente; sendo o melhor tempo o do “Danúbio”, Lusitano CN, que fez 601 m/min. Não foram os cavalos espanhóis à corrida plana por claudicação;
  • Em 1972 fez o corta-mato o espanhol importado “Habanero”, à velocidade de 466 m/min., sendo o último; ganhou o “Hiparco” CN, a 593 m/min.. Não houve corrida plana devido ao estado do terreno.

Pela evolução das exigências ao longo dos quase 40 anos de provas morfo-funcionais para garanhões da Coudelaria Nacional – o seu primeiro regulamento data de 1934 e o último de 1973 – verifica-se que estas foram regularmente crescentes, correspondendo à também crescente, embora expressa com menor regularidade, qualidade dos cavalos.

Anota-se ainda que a partir de 1960, os cavalos espanhóis importados alcançam sempre resultados inferiores aos dos Lusitanos, certamente por serem seleccionados de outra forma.

Comparando genericamente exigências e resultados, verifica-se que nos últimos anos em que se fizeram provas, as melhores velocidades tanto da corrida plana como do corta-mato, superaram os mínimos  exigidos em perto de 100 m/min., e ainda que os cavalos provenientes de linhas não seleccionadas pela mesma forma se ficam não longe dos mínimos, que alguns nem sequer atingem.

Danubio CN

“Danúbio” Lusitano CN, que fez 601 m/min. (melhor tempo no seu ano – 1968) Ag. 1,64; Pt. 72,5
Hiparco CN
“Hiparco” Lusitano CN, que fez 593 m/min. (melhor tempo do seu ano – 1972) Ag 1,55m; Pt. 84,5

 

I.      Conclusão

Hoje em dia existe uma tendência generalizada e marcantemente portuguesa de passar do oito para o oitenta, isto é, da actual inexistência de provas (nestes moldes), para a tentativa (geralmente repleta de boas intenções e muito amadorismo) de construção de um modelo tão elaborado e complicado que acabará por sucumbir na inércia de um perfeccionismo impraticável – quer pelo elevado nível de custos envolvidos, quer pela dificuldade de execução – ou num modelo desadequado aos objectivos pretendidos. É preferível gerir a situação com simplicidade, de uma forma gradual, e sustentável bem ao jeito dos povos do centro da Europa.

À semelhança do trabalho de colaboração existente noutras raças, deveria ser lançado a concurso (destinado a estabelecimentos de ensino superior e de investigação), pela APSL (instituição agregadora de todos os interesses que medeiam a raça), a construção de uma proposta de provas morfo-funcionais a implementar (enquadráveis no plano de melhoramento da raça existente), que promova a necessária pressão de selecção e seja suportado por estudos que prevejam a imprescindível sustentabilidade económica.

O futuro da raça não pode estar dissociado do trabalho de colaboração com os estabelecimentos de ensino superior e de investigação. Hoje em dia com a globalização, o leque de opções de estabelecimentos deve ser entendido à escala Global. Não é possível vivenciar soluções sustentáveis, apenas segundo perspectivas dos “nossos pares”. Há que encarar o beneficio de experiências transversais ao universo de raças de cavalos de sela, para que a raça assuma uma Internacionalização credível. Esta credibilidade implica muita dinâmica ( trabalho e ambição – a raça não pode ser gerida apenas na inércia do Estatuto de Berço da Raça), condimento essencial na concretização do potencial  de uma raça que tem motivado (e irá motivar cada vez mais) a adesão de Associações congéneres estrangeiras. As mesmas que se tornarão “dia a dia” mais exigentes numa resposta célere, por parte de quem Regulamenta a raça (APSL), a toda uma envolvente normativa necessária à projecção Internacional da raça.

Os ranking’s da World Breeding Federation for Sport Horse (WBFSH – da qual a APSL e a ABPSL são membros associados) conquistam-se com pontos em pista (única forma de provar qualidade performante).

A título de exemplo, leiam este extracto de texto, onde  se encontra espelhado o espírito de colaboração a que me estou a referir: 

…“Aqueles que passam esta primeira selecção são presentes para testes veterinários específicos, na Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Utrecht. Nestes exames veterinários, cada garanhão faz um conjunto de 25 radiografias ao corpo inteiro e despiste de cornage. Estas radiografias são analisadas meticulosamente por um Júri da KWPN em conjunto com um júri da Universidade de Utrecht.” In equitação online – Processo de entrada no stud book KWPN.

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