Entrevista extraída da Revista Equitação (Maio/Junho-2009)

RODRIGO COELHO DE ALMEIDA À CONVERSA COM FRANCISCO CANCELLA DE ABREU

 Rodrigo Almeida

“Devia-se promover a componente didáctica dos julgamentos…”

 

A sucessão de entrevistas a criadores de sucesso, tiveram como intenção dar a conhecer a dedicação, o profissionalismo, e o nível das exigências que faz o êxito de uma coudelaria.

A encerrar esta série ouvimos a opinião de um criador de pequeníssima dimensão (três nascimentos anuais). Trata-se de Rodrigo Coelho de Almeida um blogguer, estudioso e investigador do cavalo Lusitano, entre outros feitos, foi ele que trouxe a público o caso do Stud Book Brasileiro. Curiosamente do grupo de entrevistados, como poderão ver pelo teor das respostas, é o único com habilitações próprias.

FCA – Quais os parâmetros que, na sua opinião, devem ser seguidos na escolha de reprodutores?

A escolha deve pressupor um conhecimento claro e preciso dos objectivos de melhoramento da Raça (estabelecidos no plano de melhoramento da Raça), e um enquadramento global com a estratégia de selecção a seguir (a curto, médio e longo prazo), para atingir os objectivos propostos. No fundo o “saber quem sou” e para “onde vou”! O caminho só pode ser: de conjunto (abarcar os interesses de todos os criadores e utilizadores da raça); definido pela Instituição que congrega a raça (Associação de Criadores do Cavalo Puro Sangue Lusitano – APSL); e aprovado pela Tutela (Fundação Alter Real – FAR).

A consideração individual mais importante em termos de selecção, é a aptidão a que se destina o animal. Assim, a finalidade deve ser definida de uma forma precisa e sem tentações generalistas. É considerada uma distorção, em termos de determinação de objectivos de selecção, a procura de um cavalo versátil, ou seja, a selecção para muitos caracteres.

A selecção para muitos caracteres: encarece a avaliação; reduz o progresso genético.

Nos objectivos de selecção devem ser tidos em conta os seguintes parâmetros:

a)    O incremento da rentabilidade económica no sector;

b)    O interesse da competição como factor de sucesso da Raça;

c)    Que os animais resultantes do processo de selecção devem trazer benefícios e boas perspectivas de venda aos criadores;

d)    A importância da existência de uma grande variabilidade genética (para que os caracteres escolhidos para melhoramento tenham alta heritabilidade);

e)    Os caracteres considerados de interesse económico devem ser facilmente mensuráveis (fundamental para o BLUP – Best Linear Unbiased Predictor – avaliação do valor genético de um animal para uma determinada disciplina, segundo o seu desempenho e o efeito do meio).

 

No contexto do que foi dito temos de olhar para o único referencial que existe para a atribuição de pontos (grelha de avaliação de oito parâmetros – usada para avaliação de reprodutores), com uma visão crítica, uma vez que ela peca por congregar muitas características com base em critérios puramente subjectivos. A título de exemplo, a cabeça e pescoço estão agregadas num único parâmetro de avaliação, assim, questiona-se a efeito de peso entre a nota da cabeça e a nota do pescoço na atribuição da nota final (o que pesa mais ou menos, e quais as características que elevam ou descem, as notas destes parâmetros de avaliação conjuntos???). Onde está regulamentado (para entendimento do colectivo) que um chanfro recto, em conjunto com um pescoço comprido e bem feito, condiciona a nota do parâmetro cabeça e pescoço, para sete? A sustentabilidade da atribuição de notas faz-se segundo um critério funcional ou estético?

Estarmos presos a este referencial (tal e qual ele está construído) apenas com base no argumento que ele nos permite um comparativo estatístico entre os animais do passado e os do presente, é um argumento pouco sustentável. Isto porque a base da atribuição de pontos é subjectiva, o que é facilmente verificável, uma vez que a forma de pontuar está intimamente ligada ao entendimento da pessoa que pontua (que são várias e vão variando ao longo do tempo). Se fosse possível manter uma única pessoa a pontuar (conforme actualmente está a ser feito para as reprodutoras), intemporalmente, seria a única forma de credibilizar um comparativo estatístico com base nesta subjectividade.

Para dar resposta à preocupação (muito válida) do comparativo estatístico temos de recorrer a uma grelha objectiva, a Holandesa, que não implica a valorização do animal num conjunto de pontos, mas que é extremamente didáctica (é constituída por 30 parâmetros de avaliação, permitindo a quem a consulta uma visualização milimétrica e imediata dos pontos fortes e fracos do animal em questão) e de grande utilidade para as correlações genéticas que tem de vir a ser feitas no futuro.

 

FCA – Como entende os concursos de Modelo e Andamentos? Tem propostas para a sua actualização?

Os concursos de modelo e andamentos tem de ser entendidos à luz de algumas das alíneas referidas na resposta anterior, ou seja, incrementam a rentabilidade económica do sector; fomentam a competição; trazem boas perspectivas de venda e promoção aos criadores.

A fraca representatividade do colectivo de criadores da raça nestes certames (eu próprio não participo há muitos anos), e a presença constante dos mesmos criadores, em anos consecutivos, não beneficiam em nada, uma visão integrada e integrante do colectivo de criadores da raça. A afluência deveria reflectir uma perspectiva de agregação de interesses à volta da raça.

A necessidade de actualização recai para o normativo que regulamenta este tipo de concursos. Nele devem estar previstos artigos que minimizem a ocorrência de quaisquer tipos de situações polémicas. Dentro desta “filosofia” deveria:

  • Existir um regulamento de incompatibilidades para a actividade de juiz (a título de exemplo: a figura do juiz criador motiva muita polémica);
  • Promover-se a componente didáctica dos julgamentos, passando a haver explicação das notas atribuídas pelos juízes (um relatório escrito relativo a cada animal observado – para o criador; uma explicação oral – dirigida ao público);
  • Ser implementado controlo anti-doping, uma vez que a atribuição de prémios em concursos sem controlo anti-doping, pode “mascarar” resultados, condicionando o estatuto de vencedor por mérito.

 

Resumindo: Uma participação massiva de criadores pressupõe o esclarecimento e entendimento público das notas atribuídas nos julgamentos, bem como a credibilização do normativo (quer por necessidade de cumprimento, quer por actualização).

 

FCA – Qual a sua opinião acerca da liberdade criativa dentro da raça Lusitana?

Apesar de ser um forte adepto de uma redução substancial de toda a componente subjectiva que medeia a criação, e de uma consequente aplicação de critérios objectivos na avaliação de reprodutores, entendo que existe um espaço para a liberdade (exercido no campo da decisão dos emparelhamentos). Contudo, criatividade sem regras e sem conhecimento (permanentemente actualizados), só pode resultar em anarquia e colapso económico. A raça necessita do conhecimento produzido nas Instituições de Ensino Superior e Investigação (com a globalização o leque de escolha destas Instituições, para o estabelecimento de protocolos, pode ser entendido à escala Europeia). Este tipo de parceria entre Associações de criadores e as Instituições de Ensino Superior e Investigação, existente noutras raças (Ex: a raça KWPN trabalha muito com a Universidade de Utrecht), é a prova viva que esta sinergia funciona. Os protocolos a estabelecer podem abranger áreas como: a biometria; a fisiologia do esforço; a durabilidade; e a biomecânica.

Às Associações de criadores cabe um papel de transparência e comunicação (apoio), neste caso em concreto, seria na divulgação e aplicação da informação produzida nas Instituições referidas (actuação responsável pela mudança de padrões de comportamento e organização). O objectivo, para além da aplicação prática, é o de munir os criadores e utilizadores (criando massa critica), com um tipo de informação que os ajude a tomar decisões sustentáveis (nos emparelhamentos; maneio reprodutivo; estratégia; vertente comercial, etc.) que viabilizem economicamente a criação (sobretudo por mérito – aos mais atentos e esclarecidos).

Esta é a única forma sustentável de promover a adesão de novos criadores, sem o actual elevado risco de colapso, “por não perceberem nada disto” e consequentemente caírem com facilidade no acto de compra de animais sem qualidade e futuro (animais de refugo a preços de animais de grande qualidade).

 

FCA – Considera que se perdem características importantes do Lusitano, com a tendência que há por parte de alguns criadores, de direccionarem os seus produtos para a Dressage?

A grande questão é, se existe ou não perda de variabilidade genética com este direccionamento? É ponto assente que com a aplicação do mesmo critério de selecção ao longo de gerações, há uma redução do nível de variabilidade genética.

Contudo a raça pode assumir a sua “propagandeada” polivalência com a constituição de reservatórios genéticos comunicantes (única forma de não se perderem características importantes do Lusitano). Ou seja, podem coexistir diferentes especializações (linha toureio; linha equitação de trabalho; linha ensino; linha obstáculos; linha atrelagem) dentro da mesma realidade. Estas especializações (dotadas de uma certa estanqueidade – por via da selecção), formalmente comunicantes (por vontade do criador pode emparelhar animais de linhas diferentes), oferecem perspectivas futuras de grande mobilidade/adaptabilidade da raça, a todo o tipo de condicionalismos que o futuro lhe trouxer.

FCA – Será um sonho os PSL poderem competir com os melhores cavalos?

Já foi um sonho, e neste momento é uma realidade. A prova viva foi os últimos Jogos Olímpicos, que por sinal não correram nada bem para Portugal, em praticamente todas as disciplinas olímpicas em que participámos.

O importante quando algo corre menos bem, é assumi-lo, e em seguida trabalhar para encurtar o diferencial entre uma participação menos conseguida e uma boa participação.

Para uma boa participação, considero indispensável a existência de um elevado ritmo e hábito competitivo. Em países como a Holanda e Alemanha este ritmo é incutido desde tenra idade, inicialmente por acompanhamento da família em provas regionais de fim-de-semana, e mais tarde por participação activa em provas de maior dimensão e importância. Sempre em ambiente de grande regularidade (todos os fins-de-semana) e entusiasmo familiar (engata-se a roulotte ao carro e “aí vamos nós”).

Por cá a realidade cultural é outra! No entanto há um contributo que no meu entender poderia colmatar algum défice de ritmo competitivo e de resistência ao esforço. Estou a falar da perspectiva de reintrodução das provas morfo-funcionais, segundo moldes que permitam a avaliação da capacidade de resistência ao esforço.

A avaliação neste domínio, permitirá à raça afunilar a selecção na direcção da resistência e atleticidade,  (característica evidente em raças mais bem escalonadas nos rankings da soma de pontos da World Breeding Federation for Sport Horses – WBFSH). Um verdadeiro TPC – neste caso “trabalho em casa” – onde a pressão de selecção,  aplicada por via das provas morfo-funcionais,  condicionará em termos futuros, e num maior número de animais, uma diminuição do risco de “apagão” físico/moral (stress em prova), em momentos chave de grande visibilidade (concursos Internacionais ou Nacionais – em que o cavaleiro tem de gerir com maestria o dispêndio de energia do seu Lusitano, para que este não perca o brilhantismo necessário à conquista de pontos).

FCA – Comparativamente com há 30 anos atrás, como considera o Lusitano de antes e de agora?

Efectivamente constatou-se uma melhoria, contudo esta melhoria tem de se traduzir em números, uma vez que esta é a única forma de acreditação de uma raça que pretende, cada vez mais projecção Internacional.

Olhando para os números que temos à disposição (fonte: Ferreira, Costa – Coudelaria Ervideira 120 anos de história. Edições Inapa), em concreto aos resultados das avaliações realizadas no acto de admissão ao Livro de Reprodutores, dos animais inscritos no Livro de Nascimentos, constatamos que há trinta anos atrás, a média de pontuação das fêmeas admitidas era de 74,38 Pts. (1979) e dos machos 75,13 Pts. (1978). Cerca de trinta anos depois podemos constatar que a média de pontuação de admissão de fêmeas é de 71,76 Pts. (2007) e de machos 68,83 Pts. (2007). De acordo com estes números a raça está pior hoje do que há trinta anos atrás. Esta constatação foge ao entendimento dos olhos da generalidade das pessoas (na qual eu me incluo).

Em termos de dressage (única disciplina onde os Lusitanos estão referenciados na WBFSH – World Breeding Federation for Sport Horse) como pode ser verificado no quadro abaixo, e segundo o ranking da WBFSH (http://www.wbfsh.org – “ranking list by stud book”), a raça no presente ocupa o décimo lugar. Com o Relâmpago do Retiro em 32º lugar (com 1284 pontos – 52,45% do total de pontos), o Galopin de La Font em 113º (com 553 pontos – 22,59% do total de pontos), o Notável Puy du Fou em 161º (com 331 pontos – 13,52% do total de pontos), e o Pastor em 184º (com 281 pontos – 11,48% do total de pontos).

Lusitanian ( Lusit)Place 10                                                                                                               Total pontos 2448
  Pontos
32 RELÂMPAGO DO RETIRO BRA 01902

1284

113 GALOPIN DE LA FONT POR 02036 ESPANTO MTV

553

161 NOTAVEL JCL PUY DU FOU FRA 12175 FORCADO

331

184 PASTOR (PT) FRA 41448 ALTIVO PC (PT) LUS

281

23.04.2009  

 

Há que concluir, perante os evidentes ranking’s da WBFSH, que a raça está bem encaminhada na vertente dressage.

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