O “acaso” no panorama económico da criação do cavalo Lusitano

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A problemática do “acaso” no panorama económico da criação

                                                                                                                                         Por Rodrigo Coelho de Almeida

 

Vivemos dias complicados face à conjuntura económica global. A pergunta sai da forma mais espontânea: e a criação de cavalos lusitanos, onde se enquadra nesta conjuntura?

A necessidade e o bom senso são dois critérios que presidem às prioridades económicas das famílias. Afinal não nos podemos esquecer que os cavalos são um bem acessório e não um bem primário, e colocando ambos na balança, face a recursos limitados, obviamente que o primário ganha vantagem.

Face a esta conjuntura o Francisco Cancella de Abreu já alertou, e bem, que estamos perante um momento em que o criador pode optar por reduzir o número de partos, e apostar apenas no parto das suas melhores éguas (aumento da pressão de selecção). À partida o saldo qualitativo será positivo!

Existe outra perspectiva que tem de ser encarada, que recai na problemática dos custos de produção de um poldro. Nestes, o custo do sémen dos melhoradores masculinos têm-se agigantado, assumindo, nos dias que correm, somas que merecem a nossa melhor atenção!

Nesta atenção existem os seguintes factores que merecem a nossa ponderação:

  1. A fiabilidade do potencial genético do reprodutor em questão, no que respeita à transmissibilidade do melhoramento pretendido;
  2. A perspectiva de retorno do investimento envolvido;
  3. A capacidade reprodutiva associada à expressão na descendência, do potencial genético da égua.

É fundamental que exista a consciência colectiva que, sem uma definição clara e precisa dos objectivos de selecção, nunca existirá avaliação genética de reprodutores (objectiva; estimada com base no desempenho do próprio indivíduo e ou dos seus parentes; com recurso à estatística para as necessárias correlações). A avaliação genética de reprodutores é essencial para que exista PREVISIBILIDADE!

Sem um conhecimento objectivo do valor genético dos reprodutores, a vertente do conhecimento tem – obrigatoriamente – de se virar para o empirismo. Aqui, o individualismo das percepções e da experiência acumulada dos criadores, passam a desempenhar o factor de avaliação do potencial genético dos reprodutores, e a constituir a “fórmula” de sucesso da criação.

Com base neste empirismo facilmente se pode cair na “máxima” do Dr. Pedro Ferraz da Costa, exposta no livro “O cavalo Lusitano” – pag. 85 – de Laetitia Boulin-Néel e Thierry Ségard, que diz “Enquanto criadores, temos três possibilidades: fazer melhor do que o acaso, fazer como o acaso, ou fazer pior do que o acaso”; a autora do livro remata a frase com o comentário “Esta frase com ares de máxima resume de forma genial toda a complexidade da criação”.

Com tudo o que já expus, já deu para perceber que não existem dados que ofereçam garantias quanto às perspectivas de percepção do nível de transmissibilidade dos reprodutores envolvidos na criação. Quais as consequências disto? Em termos económicos significa que vamos investir o nosso dinheiro num reprodutor, que até pode ter performances individuais muito aceitáveis, ou mesmo espectaculares, mas cujo potencial de transmissibilidade das características pretendidas se desconhece em absoluto. Caí-se facilmente no paradigma do “acaso” referido pelo Dr. Pedro Ferraz da Costa.

Sem previsibilidade não se pode estranhar a manutenção de um sistema que, não funciona por antecipação, e que apenas permite que os grandes progenitores da raça (em termos de transmissibilidade – o fazer “melhor que o acaso”) só sejam descobertos quando estão em final de vida. Felizmente que a preservação do sémen veio atenuar este entrave, contudo, há que ter em conta que a qualidade espermática de uma animal vai decaindo com a idade (ex. o congelamento de sémen implica uma qualidade excepcional, pouco compatível com um animal já decrépito).

Conclusão:

  1. Presentemente existe nitidez para perceber que um dos grandes obstáculos à iniciação da actividade de criador de cavalos Lusitanos é a falta de informação;
  2. A previsibilidade institucional que advém das avaliações genéticas, tem de passar a estar presente dentro do universo de opções de qualquer tipo de criadores (desde o iniciado ao veterano);
  3. Que o surgimento de cada vez mais criadores esclarecidos, bem informados, e ambiciosos só trará vantagens à raça. A competição constitui o motor das sociedades, o seu lubrificante recai na informação, transparência e cumprimento do normativo;
  4. Quanto à perspectiva de retorno económico, na actual conjuntura, o memo só pode recair na “máxima do acaso” do Dr. Pedro Ferraz da Costa.

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