Entrevista a Diogo Lima Mayer – Coudelaria do Monte Velho

 

A COUDELARIA DO MONTE VELHO – PASSADO, PRESENTE E FUTURO

 

 

 Diogo Mayer

 

POR RODRIGO COELHO DE ALMEIDA

 

Confesso que não conheço pessoalmente o Diogo, e que o nosso encontro tem sido mediado pela virtualidade dessa auto-estrada do conhecimento e contactos, que constitui a internet, afinal, interesses comuns sempre constituíram um formato universal de aproximação da humanidade. Devo dizer que o Diogo me causou uma forte impressão, pelo voluntarismo e atitude, com que se preocupa e aborda as questões relativas ao nosso cavalo Lusitano. A confirmar esta impressão poderão ler o resultado da entrevista que lhe remeti, e que tão prontamente respondeu. Seria deveras gratificante que o meio acolhesse mais veementemente o papel do jovem criador, na construção do futuro da raça. Fiquei bastante esclarecido acerca das motivações, genética envolvida, ambições e aspirações da Coudelaria do Monte Velho.

Saúdo o empenho e dedicação do Sr. Arq. Lima Mayer à causa do Lusitano, pois acreditem que o sucesso alcançado por esta coudelaria, prestigia o papel do Lusitano na criação Nacional e Internacional. Quanto à continuidade da Coudelaria do Monte Velho… está mais do que assegurada!

 

RCA – Quais os objectivos presentes e futuros da coudelaria do Monte Velho?

DLM – A nossa visão é bastante clara: queremos continuar a criar cavalos que respeitem o padrão da raça, mas com uma crescente capacidade atlética, e com o máximo de funcionalidade. Parece-me indiscutível que a nossa selecção tem sido eficaz, e que as nossas apostas têm sido bem sucedidas. Neste último ano, efectuámos alguns investimentos consideráveis, como a construção de uma “Carrière” com medidas oficiais e com um piso ao nível dos melhores do mundo. Este investimento e outros em curso, visam dotar a coudelaria de infra-estruturas e de uma dinâmica propícia ao ensino de cavalos até ao mais alto nível.

Temos tido cavalos a competir em grande plano, como o “Paxá” MVL (Xaquiro CI x Sainha AR por Iol AR) e o “Urquilho” MVL (Quixote MVL x Libata AR por Batial AR), mas no futuro pretendemos ter um maior leque de cavalos a mostrar o seu talento e a marcar pontos na Dressage, ou noutras disciplinas para as quais revelem maior propensão. É nesta vertente da funcionalidade que estamos completamente concentrados, pois parece-nos evidente, que no futuro será esta a característica que ditará quais são as coudelarias bem sucedidas. Por outro lado, há uma crescente procura, oriunda sobretudo dos países do centro europeu, de cavalos já ensinados a um bom nível, para cavaleiros igualmente de bom nível.

 

 

Quixote MVL

Outra preocupação que está sempre presente, e que é imperativa, prende-se com a necessidade de atingir-mos anualmente o “break-even” (ponto de equilíbrio entre as despesas e as receitas de uma empresa). Até hoje, temos sido bem sucedidos nesta meta. A criação de cavalos não é para nós apenas um “hobbie” despesista. Acredito que para alguns criadores, as preocupações de rentabilidade são inexistentes. É evidente, que nas organizações onde existe maior pressão para ser rentável, a motivação para fazer melhor é maior. Se a criação de cavalos lusitanos, funcionasse como num mercado de concorrência perfeita, já muitas coudelarias tinham fechado, por estarem a baixo do limiar de rentabilidade.

 

RCA – Revele-nos um pouco do que foi o início da coudelaria do Monte Velho, as suas referências iniciais (humanas e de linhas da raça), os objectivos iniciais, e os motivos que a levaram a efectuar uma forte aposta no cruzamento da linha Alter com o garanhão “Xaquiro”?

DLM – Toda a História da coudelaria do Monte Velho é bastante peculiar. Há cerca de 25 anos, o meu Pai atravessava um período de enorme pujança profissional, onde o stress era enorme e tempo de descanso era quase inexistente. Após um susto, decidiu consultar um médico, que o “obrigou” a ter uma actividade regular para descomprimir. O meu Pai lembrou-se dos cavalos, e o médico reagiu afirmando que essa era a actividade ideal! Nessa altura o meu Pai, começou a estudar o assunto, e pouco depois comprou o seu primeiro cavalo na Companhia das Lezírias, o “Embaixador”, um filho do Maravilha MV (cavalo que se revelou histórico na raça). Nessa altura também, conheceu o Pedro Yglesias de Oliveira, um discípulo do Mestre Nuno de Oliveira, que na Quinta do Pombal em Sintra, tinha um interessantíssimo grupo de amigos, como o João Pedro Rodrigues, o João Arruda e o José Cabral, que todos os fins-de-semana se reuniam para montar os seus cavalos. Recorde-se que nessa altura, o Pêpê (alcunha de Pedro Yglesias de Oliveira) era o proprietário do “Xaquiro” CI (Quieto CI x Quieta CI por Estribilho MAC), sendo o responsável pelo seu ensino. Foram nas tertúlias da Quinta do Pombal, que o meu Pai aprendeu a montar, e começou a apaixonar-se pelos cavalos.

Há um dia que o Dr.Guilherme Borba, então director da EPAE, vai à Quinta do Pombal e fica deslumbrado com o “Xaquiro”, pedindo autorização para o cruzar com a Eguada Alter-Real. Desse cruzamento, ficou combinado, que o Pêpê tinha o direito de preferência em 3 poldros ruços, pelo que foram escolhidos o “Hexagono” AR (Xaquiro CI x Negrita AR por Guapo AR), o “Hexeno” e o “Haxo” AR (Xaquiro CI x Sainha AR por Iol AR), irmão pleno do nosso Quixote. Entusiasmados com o fantástico resultado desse cruzamento, o meu Pai e o João Arruda, decidem em 1992 ir ao leilão de Alter comprar três éguas, tendo em vista um cruzamento com o “Xaquiro”. Foi neste histórico leilão, que o meu Pai comprou a “Imboa” AR (Batoteiro AR x Xaparra AR por Plebeu AR) e a “Sainha” AR (Iol AR x Ousada AR por Sinal AR), indiscutivelmente as duas éguas basilares da nossa coudelaria. Recorde-se que a “Imboa” foi arrematada na altura por 200 contos (1000 € hoje)!

Inicialmente a Coudelaria formada foi a Coudelaria Quinta do Pombal, apenas com um poldro registado, o “Mil-Escudos” CQP (Exemplar AR x Vapoada AR por Projecto AR), que serviu durante vários anos para as lições no “Casal”, do Eng.º António Borba Monteiro.

Em 1994, o meu Pai compra a Herdade do Monte Velho em Arraiolos, para onde transfere as éguas, e inicia de uma forma mais organizada a criação de cavalos, sob a designação de Coudelaria do Monte Velho. Desde aí, nasceram animais fantásticos como a Queixosa MVL (Xaquiro CI x Imboa AR por Batoteiro AR), a Vexada MVL (Xaquiro CI x Imboa AR por Batoteiro AR) e o Quixote AR (Xaquiro CI x Sainha AR por Iol AR), todos fruto desta visão improvável que o meu Pai e o João Arruda tiveram.

Contudo, o grande salto qualitativo deu-se do meu ponto de vista, em Janeiro de 2006, quando meu Pai assinou um contrato com o João Guilherme, até aí colaborador do Vasco Freire e do seu sócio Paulo Guilherme. O João revolucionou completamente a coudelaria, incutindo-lhe maior rigor, profissionalismo e uma dinâmica muito especial. A experiência e os conhecimentos do João têm sido absolutamente decisivos, para os consecutivos sucessos que temos obtido nos últimos anos. A nossa força baseia-se essencialmente no nosso trabalho de equipa diário.

 

 João Guilherme

 

RCA – Na sua opinião quais os contributos individuais de cada uma dessas linhas, na sinergia de sucesso que motivou a ascensão da coudelaria do Monte Velho ao Top?

DLM – Lembro-me perfeitamente que quando foram adquiridas a “Imboa” e a “Sainha”, os comentários foram de gozo, pois a ideia estabelecida era a de que as éguas Alter eram “malucas”, e que o seu maneio era impossível. É indiscutível, que hoje a percepção do sangue Alter é completamente diferente. Não é por acaso que os leilões de Alter estão hoje completamente cheios, e que os valores praticados são muito mais elevados. Não é segredo que o sangue Alter, tem uma enorme pluralidade genética, pelos cruzamentos que foram efectuados no passado. Vêem-se ângulos em Alter, como não existem na raça! Ainda no passado fim-de-semana estive em Alter, e a qualidade da eguada é impressionante.

A força dos genes de Alter combinados com o “Xaquiro”, foram de facto uma mistura explosiva. É evidente que houve sorte! O “Xaquiro” cobriu dezenas de éguas em Alter, e ninguém adivinharia que uma égua de 1,53 m daria filhas com mais 15 cm e com uma qualidade muitíssimo superior. O João Guilherme costuma dizer, que no dia que a “Imboa” partir, temos que lhe fazer uma estátua! O facto de termos três irmãs plenas, filhas do “Xaquiro” e da “Imboa”, confere-nos uma vantagem adicional, pela possibilidade que temos de todos os anos repetirmos o mesmo emparelhamento pelas três éguas. Este ano por exemplo, nascerão três filhos do Quo-Vadis SS (Invulgar JHC x Gaivota SS por Jabuti JME), da “Queixosa”, “Vexada” e “Praxe” MVL (Xaquiro CI x Imboa AR por Batoteiro AR).

A nossa eguada está hoje subdividida em três grupos diferentes, e que preservaremos no futuro: As Alteres, As Quinas/Alter e as restantes. Por vezes, os nossos visitantes ficam surpreendidos, quando nos perguntam quantas éguas temos. A verdade é que neste momento apenas temos sete éguas!

 

Pagão

RCA – Como caracteriza em termos anímicos, morfológicos, e de carácter, os produtos desse cruzamento?

DLM – Parece-me claro que os nossos animais têm uma “imagem de marca”: A profundidade e amplitude torácica, o comprimento de espádua e a altura do garrote. Os andamentos impulsionados dos nossos animais, derivam a meu ver desta “enorme caixa” que possuem. Estas são características que o “Xaquiro” já possuía, mas que foram acentuadas com o cruzamento com as éguas Alter. Aliás, observando as éguas da Fundação Alter, encontro muitas semelhanças com as nossas éguas. A este propósito, considero a eguada a Alter-Real, a melhor, a mais completa e com maior potencial dentro da raça puro-sangue lusitano. Estas características estão presentes em quase todos os nossos animais, e parecem-me fundamentais para a performance desportiva, nomeadamente em Dressage. Veja-se que no modelo de avaliação linear para os KWPN, estas duas características são sublinhadas como indispensáveis para um melhor rendimento desportivo. Em termos de carácter, os animais da nossa coudelaria são “finos”, mas com um óptimo fundo. Posso aplicar a quase todos, a definição do Francisco Cancella de Abreu para o Quixote: “Carácter forte mas nobre e temperamento guerreiro”. O maneio que têm desde o primeiro dia, contribui decisivamente para este temperamento. Para dar um exemplo, todos os nossos poldros da letra E, já estão “desbastados” de cabeça e prontos para ir ao picadeiro para se mostrarem a quem os quiser ver. Mais uma vez, o facto de serem apenas sete poldros, facilita do ponto de vista logístico o seu maneio.

 

RCA – Como prevê a fixação dessas características nas gerações futuras, uma vez que já estão a trabalhar no emparelhamento de animais heterozigoticos (produtos do cruzamento Quina*Alter)?

DLM – Essa pergunta faz todo o sentido, e é aliás uma preocupação que temos neste momento, e que se reflectirá nos nossos emparelhamentos deste ano. Após o excelente resultado que obtivemos com o cruzamento Quina/Alter, quisemos fazer algumas experiências até para conhecer melhor as nossas éguas, e para aferir o seu potencial genético. A principal orientação foi a escolha de Garanhões com funcionalidade testada, e com grande capacidade galopadora. Não há que esconder, que neste particular o “Xaquiro” transmitiu algumas dificuldades, como comprovou o seu ensino, onde revelou dificuldade na concentração e no equilíbrio. Daí a escolha do Hostil JGB (Zico MMV x Vaidosa JGB por Formoso JGB) e do Quo-Vadis (Sociedade das Silveiras). Este ano introduziremos ainda o Zimbro CVF (Raja MAC x Reboleira MTV por Moscatel AML), outro garanhão que a par da sua evidente qualidade morfológica, revela ainda uma indiscutível capacidade galopadora. Por outro lado, este ano tentaremos repetir a fórmula de sucesso verificada no passado, com a introdução de um garanhão excepcional, com um código genético praticamente igual ao do “Xaquiro”. Quero por enquanto manter o segredo sobre este garanhão, mas denota pelos seus vídeos uma capacidade galopadora em nada comparável ao “Xaquiro”. Outra das apostas que faremos este ano, é o nosso garanhão “Pagão” MVL (Gabaço AR x Libata AR por Batial AR), um Alter Puro que cobrirá a “Queixosa”, “Vexada” e “Praxe”. Neste cruzamento, não sairemos do Quina/Alter, embora o “Pagão” tenha uma “pitada” de Andrade, oriunda do “Vidago”.

Nos últimos anos, efectuámos algumas experiências de “inbreeding”, e o resultado foi fantástico nalgumas características e péssimo noutras. Não acredito que exista algum animal na raça com a suspensão e elasticidade da “Zuqueta”, uma égua do nosso ferro, filha do “Quixote” e da “Queixosa”, hoje propriedade da Coudelaria Quinta da Carvoeira. É simplesmente inacreditável a forma como se movimenta. A contrastar com estes andamentos ao nível de um hannoveriano de topo, a égua apresenta infelizmente uma enorme “marreca”. Esta experiência revelou-nos, que é preciso ter muito cuidado no inbreeding, pois defeitos indesejáveis aparecem com muita frequência. Já no “Conquistador”, irmão pleno da “Zuqueta”, o resultado foi fantástico.

Resumindo, temos tido uma grande preocupação de fixar as características que nos tornaram diferentes, com a introdução de garanhões de genes idênticos aos utilizados no início, e ocasionalmente escolheremos garanhões com genes diferentes que podem trazer um valor acrescentado às características das nossa éguas.

 

RCA – Da sua sensibilidade, quais as características dos progenitores que se transmitem com mais, e menos facilidade?

DLM – Julgo que esta é uma questão eminentemente técnica, e existirão profissionais mais habilitados do que eu para a abordar. Contudo, da minha experiência, parece-me que os níveis de hereditabilidade são maiores nos parâmetros morfológicos e nos andamentos. Já nos membros, esses níveis são menores. Veja-se como as nossas éguas Alter, com chanfros rectos, cruzadas com o “Xaquiro”, deram cabeças sub-convexas e dentro do padrão pretendido para a raça. Por outro lado, éguas com andamentos rasteiros e nada impulsionados, deram-nos poldros com uma excepcional impulsão e elasticidade.

 

RCA – Pelo que percebi, neste momento introduziram mais um dos importantes reprodutores da raça, estou-me a referir ao “Hostil”, fale-nos das esperanças e certezas deste contributo?

DLM – A escolha do Hostil, deveu-se essencialmente à grande confiança que tínhamos no Dr.Guilherme Borba e no Eng.º António Borba Monteiro. Lembro-me perfeitamente das tardes passadas no Casal, a assistir ao espectáculo proporcionado pelo Dr.Guilherme Borba com o “Hostil”, que foram absolutamente memoráveis. O “Hostil”, é fruto de uma selecção quase centenária do Dr. Guilherme Borba feita pela funcionalidade, e parece-me uma excelente opção para criar uma base genética sólida em qualquer coudelaria. Fez e faz todos os exercícios de Grande Prémio com enorme facilidade, e os seus filhos têm-se revelado extraordinários, como comprovam o “Rico” GUB (Hostil JGB x Cortiça FEA por Tivoli AR) e o Soberano GUB (Hostil JGB x Nobreza GUB por Xaquiro CI), por exemplo. A escolha para cobrir na Fundação Alter-Real este ano, parece-me por isso acertadíssima. Acima de tudo, parece-me um eficaz melhorador.

 

RCA – Há uma reconhecida e forte aposta da coudelaria do Monte Velho na vertente do modelo e andamentos. Na sua opinião, e atendendo a que esses certames tem um impacto muito grande na criação, acha que existe necessidade do contributo da avaliação da capacidade galopadora, na nota final?

DLM – É claro que a notoriedade que o Monte Velho atingiu se deveu essencialmente aos resultados obtidos nos concursos de modelo e andamentos. Afinal de contas em 9 anos, conseguimos três títulos de Campeão dos Campeões, o que não foi fácil. Chegar em primeiro num pelotão com mais de 100 cavalos é uma tarefa difícil. Gostava aliás de utilizar uma citação de D. Manuel de Lencastre, no seu livro “O Puro Sangue Lusitano”: “… Sejamos honestos. É excepcionalmente difícil seleccionar um Campeão dos Campeões. É invulgarmente dificultoso obter uma raça de bons cavalos de toureio. Juntar as duas características, de beleza e de trabalho, será pior do que achar uma agulha num palheiro…”

Partindo desta citação, parece-me que já atingimos o patamar da beleza, mas temos muito que caminhar no que ao trabalho diz respeito.

No que concerne à avaliação da capacidade galopadora, parece-me de muito difícil implementação nas classes dos animais apresentados à mão, mantendo o actual formato dos Concursos. O que julgo, é que os criadores dão demasiada importância a estes certames, quando na realidade a prova dos nove, dá-se quando iniciam a sua carreira desportiva. Como referi, na minha opinião, é um tremendo erro, basear a selecção com base nos resultados dos concursos de modelo e andamentos.

 

RCA – Qual a ordem de importância que dá às seguintes características: montabilidade; modelo; andamentos?

DLM – Dessas três características, parece-me que a montabilidade é seguramente a mais importante. Numa altura em que temos que ser necessariamente mais competitivos, para que o nosso cavalo possa bater-se de igual para igual com um qualquer outra raça, não podemos continuar a seleccionar apenas para exposições. Os criadores que seleccionarem dessa forma estão do meu ponto de vista condenados ao fracasso. Neste ponto, apoio incondicionalmente a visão de Francisco Cancella de Abreu. Claro está, que a raça não pode ser descaracterizada. É fundamental, que saibamos que estamos a criar lusitanos. O caminho mais fácil para nós, seria cruzarmos a “Queixosa” com os warmblood, Totilas ou com o Don Schuffro. Sairiam animais muito interessantes seguramente, mas estou convicto que chegaremos lá sem ser por esta tentadora via. Por outro lado, desses três parâmetros, dois são dinâmicos e um é estático. O Modelo nasce com o animal, e com variações muito residuais, é um elemento fixo. A montabilidade e os andamentos, são factores dinâmicos e intrinsecamente relacionados com a qualidade de ensino do animal. Há cavalos imontáveis, que o são, porque o seu maneio foi manifestamente mal conduzido. Um deles foi o “Guizo” FEA (Zasebande AR x Catraia FEA por Tivoli AR), que estava “arrumado”, e no dia que foi entregue ao Juan António Jiménez, demonstrou que com disciplina e talento era possível chegar ao topo. A este propósito, quando o “Guizo” entrou na ribalta da Dressage, eu e o meu Pai fomos a Madrid ver um treino do cavalo, e ficámos muito impressionados.

Resumindo, classifico por esta ordem de importância essas três características: Montabilidade, Andamentos e Modelo.

 

RCA – Na sua opinião acha possível avaliar a montabilidade nas concentrações de Garanhões, no actual formato?

DLM – No actual formato é possível aferir no essencial a qualidade dos andamentos. Não é um formato perfeito, e comparado com os formatos estrangeiros é manifestamente incompleto. Falta sobretudo uma componente muito importante, nomeadamente, a avaliação dos animais em liberdade. Julgo que o regulamento aprovado recentemente em sede de Assembleia-Geral, e que carece ainda de aprovação da FAR, contribui para uma maior exigência nessa avaliação. Todo o sistema, que introduza maior exigência, parece-me sempre melhor ao actual, que é manifestamente escasso e pouco exigente.

 

Queixosa

RCA – Qual deve ser o papel de Portugal no desempenho da raça no Mundo?

DLM – Portugal deve assumir o papel de liderança da raça, não devendo ter receio de adoptar essa posição. Quando falo em liderança, não me refiro a poder. Estou a pensar em termos de exigência e qualidade. É indiscutível o trabalho que tem sido desenvolvido no Brasil, em que obviamente há que destacar o Haras Villa do Retiro, pelo empreendedorismo e dinâmica do seu proprietário e de toda a sua equipa. O desempenho do Relâmpago de Retiro, constitui um motivo de orgulho da criação brasileira, mas tem beneficiado comercialmente todos os criadores da raça. Por incrível que pareça, os criadores brasileiros têm-nos dado uma autêntica lição de trabalho de equipa, de inovação e de promoção dos seus produtos.

O puro-sangue lusitano é um produto de excelência nacional, a par do azeite, do vinho e da cortiça. A nossa rica história, confere-nos uma enorme responsabilidade que não é de todo compatível com comportamentos amadores e menos responsáveis. Temos um grande problema que é infelizmente transversal na nossa sociedade, nomeadamente, a nossa grande dificuldade de trabalho em equipa. É esta dificuldade que nos impede, do meu ponto de vista, de voar mais alto. As grandes conquistas encontram-se quando o conjunto prevalece sobre o indivíduo. Veja-se como em pouco mais de dez anos, a Holanda se tornou numa superpotência da Equitação. Como é que foi possível? Com estratégia, método e essencialmente um esforço de trabalho de equipa. Paralelamente, somos muito pouco empreendedores. Se queremos estar na frente, temos que ser mais pró-activos. O inconformismo e a irreverência de José Manuel de Mello, constituem para mim uma fonte de inspiração.

Os portugueses são por natureza um povo individualista. Julgo que devemos combater esta dificuldade com mais acções conjuntas e com um enorme esforço de agregação e não de dispersão. Acredito firmemente que o melhor da raça está em Portugal. Foram exportados muito bons garanhões, agora, as melhores éguas da raça estão em Portugal. Não tenho qualquer dúvida em dizê-lo.

Acredito que estamos no bom caminho. Vejo criadores a fazerem um óptimo trabalho, com muito mais exigência na sua selecção, a procurarem informações junto de profissionais habilitados. Dispomos de um leque de extraordinários cavaleiros, que constituem uma autêntica alavanca para a nossa afirmação no exterior. O caminho tem que ser o da profissionalização. Agora, as instituições que tutelam o sector, nomeadamente a APSL, têm uma responsabilidade acrescida, e têm que dar o exemplo. Julgo, que sobretudo na comunicação e na transparência há muito a ser feito. Muitos dos problemas que têm existido nos últimos tempos, teriam sido supridos com uma informação eficaz e uma maior transparência.

 

 

Dou ou meus parabéns ao Rodrigo pelo serviço que tem prestado a todos criadores, pelos textos que tem divulgado e pela dinâmica contagiante que tem evidenciado. A selecção na coudelaria de Pitamarissa parece-me muito acertada, pois os critérios de funcionalidade estão na base de todas as escolhas tomadas.

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