NEW – Entrevista de Opinião – Francisco Cancella de Abreu

 

 

Caros Amigos,

Diz-se que as conversas são como as cerejas, ou seja, quanto mais se tem, mais se quer, não acabam. No caso do conhecimento e vivência que aporta, o Francisco vem mais uma vez demonstrar que no que respeita a assunto de cavalos, o mesmo nunca se esgota, pois há sempre pormenores para mais.

Mais uma vez enfatizo a disponibilidade, frontalidade, e a celeridade com que o Francisco responde a todas as questões que lhe são colocadas. Em Portugal, e principalmente neste meio, não é comum esta postura!

O meu agradecimento ao Francisco, pelo seu contributo à pluralidade.

Deixo-lhes a mais recente entrevista de Cancella de Abreu…

Os meus cumprimentos,

Rodrigo Coelho de Almeida

 
 
 
 
 

 

 

Francisco Cancella de Abreu (foto: www.dressageportugal.com)

  

RA – Que diferenças nota entre a realidade afecta ao culto do cavalo Lusitano, entre Portugal, Espanha, e Brasil, na vertente Institucional e particular, de performance/criação?

FCA- Tive ocasião de referir no programa televisionado Tribuna Lusitana, que QUANTO MAIS TRADIÇAO, MENOS EVOLUÇAO. Devo repeti-lo para responder, salientando as percentagens que pressinto existirem, relativamente ao estatuto da performance na criação, nesse contexto atribuo: 25% a Portugal; 50% a Espanha; e 70%.ao Brasil.

Em Portugal o lusitano só aparece em quantidade relevante, e ao nível do desporto internacional, nos anos 90 com a atrelagem, depois na dressage, e logo apareceu a equitação de trabalho. Anteriormente a única performance contrastável era a tauromaquia e a equitação de alta escola. O Stud Book havia aparecido anos antes, mas sem outro objectivo que não fosse fazer um cavalo típico. Continuou-se por isso interminavelmente a ter como objectivo, a pretensão de imprimir um cunho pessoal, criando um cavalo de estilo próprio, sacrificando-se a performance à homogeneidade do efectivo.

No entanto, esta ideia corresponde ao desígnio de construir uma raça pessoal, dentro de uma população oficialmente reconhecida. Compreensível à época, mas fonte de tempo perdido na evolução da performance, e ainda totalmente contra aquilo que eu considero a efectiva fonte de tradição – o tratado de Manoel Carlos de Andrade. Com paciência há que ler o livro da “Luz da Liberal e Nobre Arte da Cavalaria”, e da pág. 20 à 58, poderão constatar tão actual que poderia ser a nossa TRADIÇÃO.

Se olharmos os regulamentos dos Stud-Books das modernas raças abertas, percebe-se que existe um direccionamento de autoria recente, em que existe um transparente escalonamento de objectivos: o objectivo primário e principal é a performance; e o segundo é secundário e decorrente do primeiro – trabalhar o fenótipo. Cada ano que passa, impõem-se normas cada vez mais restritivas, no acesso ao estatuto de elite reprodutora. Isto contribuiu para a valorização qualitativa e progresso genético das respectivas raças, no entanto, em Portugal, pela tradição que reina, normas com estas características jamais seriam aceites.

Num Mundo cada vez mais competitivo, os criadores terão que optar se querem que este cavalo sobreviva com rentabilidade, ou se pretendem eternizar o lema do entendimento da criação, como a arte de empobrecer alegremente. O Lusitano terá que ser vendido como um cavalo capaz de fazer o que fazem as outras raças, mas com factores de diferenciação, que nós tão bem conhecemos, mas que carecem de desenvolvimento do seu potencial. Que são: oferecer ao utilizador sensações reais de facilidade e gozo; oferecer o seu talento natural; e por fim possibilitar o usufruto da sua capacidade de entrega e de superação excepcional. Estes são as qualidades efectivas que caracterizam o Lusitano, e que o superiorizam perante as restantes raças de cavalos de sela.

 

 

RA – Mas Francisco, perante os resultados dos rankings de dressage da FEI, os mesmos não traduzem a realidade que aponta. Que explicação fundamenta a sua constatação?

FCA- O ranking de dressage não é um certificado de capacidade atlética, pois baseia-se unicamente em resultados de GP, nível onde há espaço para a costela artística do talento do cavalo e cavaleiro. Por isso, nos outros rankings exclusivos da capacidade atlética, não está um único lusitano, nos rankings de Obstáculos, CCE e Endurance. O que proponho para esta raça fechada, mas não parada, é que a curto prazo, os lusitanos se tornem tão atletas que possam figurar nos outros rankings, afinal é uma dívida que existe para com o melhor cavalo do mundo, até ao florescimento do PSI no séc. XIX.

 

RA- Perante os resultados obtidos, cavaleiros que os montam, e genética que carregam, poderá ser efectuado um comparativo de particularidades, entre os quatro Lusitanos do momento: Relâmpago do Retiro; Rico; Rubi; Sal?

FCA- Rico usufruiu da cavaleira mais experiente, ele é para mim o mais atleta dos citados, na minha opinião, apenas é ultrapassado em Portugal pelo Xiripiti (ferro Torres Vaz Freire, agora montado pela Maria Caetano). O Rico obteve por isso, 77% numa prova intermediária 1, que confirma a sua capacidade atlética, está a iniciar-se no nível Grande Prémio.

O Relâmpago do Retiro e o Rubi são os mais experientes, o que lhes dá mais segurança ou seja diminui a quantidade de erros, pelo aumento do nível “cultural”. Eles sabem exactamente as sequências dos exercícios que os esperam e auto-preparam-se.

O Sal tem feito uma época fulgurante e apresenta no presente provas muito cuidadas, realçando os pontos fortes e conseguindo disfarçar os menos bons, com um par de anos de GP teremos um verdadeiro crack.

Geneticamente creio que têm um parentesco bem afastado, pelo que podem ser os garantes da variabilidade da raça, com uma testagem superada ao mais alto nível.

 

Rico

RA- Relativamente aos quatro lusitanos do momento, pode-se constar que existe um diferencial entre níveis, nomeadamente os que se encontram ao nível de S. Jorge. Julga-os comparáveis aos que se encontram em Grande Prémio?

FCA- Considero que os que estão em nível São Jorge são muito mais atletas. O Rico pontuou 77%, e o Xiripiti 65%, no primeiro internacional, fazendo uma quantidade de erros. Daqui se entende que com o aperfeiçoamento, para chegar à barreira dos 70%.

 

RA- O Dr. Ruy D’Andrade no seu vasto espólio de escritos acerca do cavalo Ibérico, refere que o Lipizzano, na Viena de Áustria de então, era o cavalo que melhor resistia às agruras da dureza do chão das ruas daquela cidade. Considera que esta realidade, no que diz respeito à qualidade dos membros, ainda persiste nos dias de hoje? Qual a sua opinião relativamente aos resultados de um formato de selecção mais sistemático e regrado (mais germânico), aplicado a uma raça pertencente ao tronco Ibérico (Lipizzano), no que respeita à mecânica de andamentos, qualidade dos membros, e apetência para a moderna disciplina de dressage? 

FCA- A mistura de sangues que tem o Lipizzano, sobretudo da linha Siglavy, faz dele, obrigatoriamente um cavalo resistente ao nível dos membros. Por outro lado, possivelmente derivado do seu alto nível de consanguinidade, tem-se mostrado muito frágil a várias epizootias (enfermidades), que já puseram em grave risco a éguada de Piber.

A selecção feita ao longo dos quatro séculos foi encaminhada no sentido da grande correcção de andamentos e facilidade de reunião. Estas características podem ser constatadas nos cavalos da Escola de Viena, bem como na atrelagem Internacional, onde a Hungria aparece normalmente com exemplares desta raça.

Na dressage Internacional apareceram mais recentemente, os cavalos da Eslovénia, da coudelaria de Lipica, local onde se originou a raça, com um sucesso satisfatório. Via-se no entanto, que os cavaleiros não tinham a melhor técnica, pecando as suas apresentações por rudes. O que claro está, não facilita a vida das montadas.

Resumindo o Lipizzano apresenta problemas muito semelhantes ao dos lusitanos, tem a vantagem de ser mais poderoso e a desvantagem de ter menos flexibilidade.

 

RA – Como pode uma raça que é essencialmente seleccionada para a escola de Viena, apresentar os mesmos problemas que o Lusitano, que não tem sido seleccionado para um fim tão específico?

FCA- O Lusitano brilha pelas suas capacidades naturais, isto é, de se deixarem montar como nenhuma outra raça. Mesmo sem uma selecção sistemática, o toureio foi usado com grande sucesso como o teste máximo da montabilidade, e nesta prática, várias foram as coudelarias que a usaram como critério de selecção de reprodutores.

Temos um excelente exemplo, e bem actual, de dois cavalos de Paulo Caetano, o Útil e Portugal, criados com intenção tauromáquica, a vencerem em GP, pela aptidão física que a tauromaquia exige.

A grande questão que se levanta relativamente à raça Lipizzana, é se esta quer evoluir desportivamente, ou por outro lado, se considera que atingiu uma desejada estabilidade, com um tipo barroco, mais apto para uma equitação antiga, com mais concentrações que extensões.

Esta equitação mais antiga permite-lhes cumprir com os espectáculos, e ao contrário da dinâmica do desporto, mantém cristalizado o nível de dificuldade. A meu ver, entendo-a como uma raça de cariz conservador, que apenas usa as outras raças pertencentes ao troco Ibérico, para diminuir a perigosa consanguinidade, e não para uma melhoria da sua capacidade atlética. 

 

RA – Na sua opinião e dentro do tronco Ibérico, quais as características que distinguem o PRE do Lusitano, e este do Lipizzano? Acha que a estanqueidade é uma solução de continuidade (com a actual suspensão do artigo 18 do Regulamento do Livro Genealógico), ou existirão sinergias que podem ser de aproveitamento complementar, entre as diferentes raças que compõem o tronco Ibérico?

FCA- Na minha opinião o tronco ibérico devia promiscuir-se, com a mesma aceitabilidade com que a raça Lipizzana o faz, tal como sempre se fez, até se ter criado esta “modernice” dos stud book PSL e PRE.

Considerando essa possibilidade, e não são poucos os criadores que a ponderam, e fazendo futurologia: os PRE rapidamente voltariam a ser um cavalo de sela; o Lusitano rapidamente seria um cavalo poderoso; e os Lipizzanos tornar-se-iam mais flexíveis e menos atarracados.

Curiosamente vi há pouco na Alemanha, um garanhão Kladruber que me tocou profundamente. Se o artigo 18 funcionasse iria à procura dele.

Aqui uma vez mais peço a leitura do Manoel Carlos de Andrade, e saliento ainda o caso Trakenner, raça fechada e dita pura (embora nenhuma o seja ou o venha a ser), que no seu regulamento de reprodução aceita o PSI e o Shagia como refrescadores. O Trakenner não sofre pelo facto qualquer desvalorização.

 

Fuego XII - WEG 2010

RA – Considera o poder que refere, o contributo da origem Lipizzana do Firme, na sua descendência?

FCA – Sem qualquer dúvida, o Firme é o melhor exemplo do que um refresco Lippizano pode fazer.

 

RA- Nas diferentes coudelarias em que presta serviço de acessória, e atendendo aos objectivos de criação de cada uma delas, propõe-se a produzir o mesmo tipo de cavalo?

FCA- A minha proposta em todas as coudelarias com que trabalho é a de fazer melhores atletas. Por uma questão de ética profissional não avalio os Lusitanos como membros de uma raça, mas antes como membros da espécie equina, exactamente do mesmo modo como vejo um PSI ou um Hannoveriano. A genealogia apenas me interessa para evitar a consanguinidade.

No modelo, procuro entender o motivo para uma locomoção insuficiente, e se for um animal destinado à criação, tentarei corrigir esses defeitos com emparelhamentos compensatórios.

No fundo apenas me interessa a correcção da locomoção, a atitude mental, e a performance que isto permitirá. Creio que já se perdeu tempo demais com preciosismos morfológicos, há que manter a característica racial que distingue o Lusitano dos outros – ser convexilínio no aspecto e ter uma talentosa incondicional entrega ao seu cavaleiro -, no entanto, o resto das características com que o tentam valorizar, são características da espécie, e qualquer raça as pode publicitar. Sejamos lúcidos, o Lusitano do momento vale pela sua montabilidade disponível, mas está todavia longe de valer pelo seu atleticismo.

Pertence aos criadores a decisão se querem cavalos de competição ou de exibição, tudo é possível em zootecnia.

Claro que mesmo apontando para um nível de exigência máximo, as necessárias para fazer cavalos ideais para dressage, existe a garantia que nem todos os animais nascem atletas ao nível ambicionado. Assim, sobrarão sempre bons e saudáveis animais para as outras disciplinas, existindo uma escala de exigências de aperfeiçoamento técnico que veremos abaixo.

 

RA – O desinteresse nas genealogias revela uma indefinição performante nas linhas existentes? Será desadequado afirmar que a linha Andrade tem uma apetência funcional diferente da Veiga, ou mesmo da Alter? Como vislumbra um melhoramento da capacidade atlética sem testes de resistência ao esforço?

FCA – Tenho usado com sucesso a mistura dessas três famílias, que são complementares. Em resumo: o ideal seria ir buscar o porte ao Andrade; o passo e o galope ao Veiga; e o trote ao Alter.

Convém no entanto que se criem mais famílias, que bem emparelhadas, nos tragam igual nível. Os testes de resistência são fundamentais para se conhecer cada reprodutor.

Lamentavelmente não temos organização capaz de receber, em condições técnicas aceitáveis, uma testagem, de pelo menos 30 dias. Espero que algum dia se voltem a realizar, a bem da raça, já que as instalações existem.

 

RA- Em relação à qualidade do passo, e entrando na disciplina de dressage, considera que a importância da sua amplitude é a mesma, durante os diferentes estados evolutivos de um cavalo de dressage? Os últimos anos têm-nos mostrado que muitos cavalos que ganham provas de cavalos novos, acabam por não chegar ao nível de Grande Prémio, e por outro lado existem cavalos a pontuar em Grande Prémio que nunca fizeram provas nos níveis de iniciação. Que qualidades considera fundamentais para vencer em cada um dos níveis?

FCA – A amplitude e mecânica correcta do passo é determinante nas provas de cavalos novos, onde só está praticamente em jogo, o atleticismo da locomoção e a submissão.

Á medida que se sobe os degraus para o Grande Prémio, a amplitude do passo perde um pouco da importância, contudo, a este nível, constituem grandes dificuldades: a regularidade e correcção da mecânica; a definição dos quatro tempos. O talento para os exercícios reunidos, aliado a um andamento correcto, são fundamentais para poder competir em GP. Uma mecânica correcta e ampla, constituem dois requisitos fundamentais em cavalos novos.

 

RA – Actualmente e no enquadramento da modernidade desportiva qual a importância que atribui à mobilidade em todos os sentidos? Os warmblood também a possuem?

FCA – As exigências em mobilidade são bastante diferentes, para as várias modalidades, e na equitação de obstáculos, e CCE, ela é muito importante.

Nunca encontrei um warmblood que consiga fazer o que espontaneamente o Opus fazia, nem o alargar e encurtar do galope a “ladear”, como tantos cavalos de toureio conseguem. Agora uma coisa recordo, que a evolução da mobilidade e da agilidade no warmblood é notável. Nas últimas décadas passaram da mobilidade de um comboio à de um smart.

 

RA – Fazendo um paralelo entre a equitação de trabalho e a dressage, quais as preocupações em termos de selecção, que podem ser comuns e distintas, na produção de cavalos para estas disciplinas?

FCA – Creio que a selecção tem que ter sempre o mesmo objectivo, fazer o melhor e mais completo atleta, os únicos que podem ter sucesso hoje em dia em Dressage e Atrelagem.

A Equitação de trabalho é mais condescendente quanto à correcção de andamentos, atendendo a que a maioria dos cavalos se apresenta demolido pelo abuso do freio. É mais facilmente competitivo um cavalo mais atleta que suporte melhor o encolhimento da embocadura, mesmo que falto de amplitude, desde que seja regular. Cabem aqui aqueles cavalos que foram feitos com o objectivo competição federada, mas que são por exemplo demasiado pequenos, têm pouca elasticidade no trote, etc..

 

RA – No ser humano a elasticidade e flexibilidade são trabalháveis, considera que nos cavalos pode haver ginástica nesse sentido?

FCA – Claro que sim, a ginástica melhora a elasticidade e flexibilidade, nos cavalos conseguem-se grandes transformações, mas quando o tipo é demasiado compacto e de membros curtos, como no caso do Lipizzano, a rigidez é sempre maior.

 

RA – Nos moldes actuais em que o padrão da raça serve de base a uma valorização quantitativa (aplicação da actual grelha de oito parâmetros de avaliação), o mesmo acaba por penalizar animais com um aspecto mais desportivo. Acha que existe entendimento entre a vulgarização da especialização como objectivo de criação, e a manutenção de um padrão da raça que vincula quantitativamente a totalidade da raça a um único tipo de animal?

FCA – Conforme tive ocasião de referir inúmeras vezes, reajo sempre que posso contra a tirania do belo, que existe para eternizar a negociata instituída. É óbvio que o comprador incauto, tem que pagar mais caro um animal de 75 pontos que um de 70.

Se alguma vez o lobby deixasse mudar este sistema de ver cavalos, para uma avaliação internacional descritiva, verificaríamos claramente, e a título de exemplo, que o cavalo de 75 pontos, afinal tem um 4 a galope e 5 a temperamento, e que o de 70 pontos, afinal, não baixa do 7 em nenhum andamento, é simplesmente mais orelhudo, e tem um dorso que não está na moda, por não ser horizontal e rígido como é do agrado dos estetas. Como já respondi acima, o Lusitano deve sim manter o tipo convexilineo que o distingue, e a montabilidade talentosa que o superioriza, o resto são requintes, às vezes de malvadez.

Não falaria de especialização, mas sim de capacidade atlética que permita uma especialização no que mais agradar a cada criador. Sabendo-se que a mais exigente é em dressage, seguida do CCE, da atrelagem, toureio, equitação de trabalho, obstáculos, espectáculo, e por último o lazer

 

RA – Acabou por não referir se o padrão actual se adequa à modernidade que preconiza?

FCA– O padrão destina-se a orientar quem quer fazer Lusitanos para ganhar concursos de beleza, sendo a perfeição racial premiada com a nota 100.

É uma versão um pouco lírica, sonhadora de um cavalo ideal, inspirada mais em gravuras e quadros de autores célebres, que em cavalos reais. Contém ainda alguns erros biomecânicos que convinha desfazer.

O facto de existir um padrão não torna proibitivo, que apareçam dentro da raça animais incaracterísticos que se superiorizem.

Os Lusitanos que demonstraram competência em desporto, situam-se às vezes, bastante abaixo dos 100 pontos, outras vezes, poucas, coincidem com boas notas na grelha oficial.

Creio que se conservarmos o tipo convexilineo, com as vantagens mecânicas que ele implica, estamos a melhorar a raça. Se coincidir com o padrão, comercialmente, antigamente era melhor, mas tal como a situação se apresenta, já não tenho certezas.

 

RA – Na sua perspectiva, qual o maior contributo para um aceleramento do progresso genético da raça, e por conseguinte para a construção do Lusitano do futuro?

FCA – Creio que só há um caminho, que será fazer menos animais por ano, mas muito melhores atletas, que possam conviver e até superar os cracks das outras raças. Se forem bonitos tanto melhor, mas para os cavaleiros de hoje em dia, a beleza, está muito mais próxima da gloria desportiva, que propriamente no tamanho ou do perfil da cabeça do cavalo que montam.

 

RA – No decurso do seu percurso equestre, quem são as suas referências do passado e do presente, e em que medida contribuem para aquilo que o Francisco hoje em dia representa enquanto treinador? 

FCA – Sem dúvida nenhuma que a minha referência máxima é o Dr. Guilherme Borba, que admiro como Homem, mestre de equitação e criador. A quem devemos a possibilidade de estar aqui agora a falar disto, pois sem ele o lusitano estaria seguramente muito mais próximo do Sorraia ou do degenerado cavalo PRE, nunca teria havido um Afiançado, um Novilheiro, um Neptuno, um Xaquiro, um Rico ou um Rubi, só para citar alguns. Ele é discretamente o pai do Lusitano moderno e da moderna competição, através dos alunos que teve. Creio que o que tem realizado é uma obra bastante superior ao que o seu colega alemão, Dr. Gustav Rau, fez na Alemanha, onde muitas ruas e avenidas usam o seu nome. Espero que algum dia o possamos homenagear com a dimensão devida

 

Xaquiro

RA – Recentemente há quem tenha levantado a questão do Xaquiro ter sido um cavalo que apenas se deixou arranjar tardiamente, e cuja descendência não se tem revelado tão performante como o marketing que o suporta como reprodutor. Qual a sua consideração acerca desta constatação?

FCA– Só pode ser uma versão ignorante ou mal intencionada! Impossível de dizer e muito menos escrever, caso houvesse a almejada base de dados, que facilmente organizaria os reprodutores pela qualidade da descendência, resultados desportivos, tendências físicas, características de locomoção, etc..

O facto de ser difícil de arranjar, não o transforma num animal com falta de qualidade. Mas como nunca foi contrastado pela competição, é agora avaliado por uma descendência, com parte da qual tenho trabalhado em “clinics” ou de forma mais prolongada. Dos que me lembro posso citar os seguintes:

Oxidado JPRodrigues, campeão do mundo de ET e várias vezes Campeão da Europa e de Portugal ensinado ao nível de GP.

Spartacus LPidwell, Internacional de dressage, campeão nacional de cavalos novos 4, 5, 6 a competir em GP-

Oxalis da meia lua, Internacional de dressage, vencedora de GP’s Kur no estrangeiro

Luxo Passanha, internacional de cavalos novos

Veloz Figueiras, campeão nacional de 4 e 6 anos, internacional de cavalos novos e de atrelagem

Luxuoso Passanha, não competiu ensinado ao nível de GP

Valeria Figueiras, nacional de dressage, e internacional de atrelagem

Unix Figueiras, internacional de atrelagem

Paxá do Monte Velho, internacional de cavalos novos, chegou a GP

Vistosa Figueiras, nacional de obstáculos e nacional de atrelagem

Uivo Figueiras, nacional de atrelagem e obstáculos

Quixote do Monte Velho, pai de pelo menos 3 campeões nacionais de cavalos novos

Gostava de saber qual o garanhão que supera o Xaquiro? Mesmo no mundo, não há muitos garanhões com tantos descendentes a nível de GP.

 

RA – Em que aspectos, a época reprodutiva de um garanhão, são compatíveis com o trabalho a que este se encontra sujeito enquanto atleta em competição? Em caso de existir quebra de rendimento, como é que se pode superar este “obstáculo”?

FCA – Aqui temos em jogo dois rendimentos antagónicos, o que o dono do garanhão pretende e o rendimento que o cavalo tem que oferecer em competição. Graças à inseminação artificial e desde que o sémen do cavalo congele bem, não temos qualquer problema Se este não poder ser congelado, aí a gestão da época desportiva é mais delicada, já que muitos dos concursos interessantes, coincidem em pleno com a época de reprodução. Felizmente cada vez mais o sistema de colheita de sémen evolui no sentido de nem sequer ser preciso um manequim, e já, de alguns garanhões com bons modos, a recolha é feita em estação evitando assim o desgaste, que sucessivas empinadas e respectivos falhanços acarretam.

 

RA – Na sua opinião, considera que a forma brilhante como alguns cavalos novos são apresentados, poderá comprometer o seu futuro desportivo? Estou a pensar nos círculos apertados a que certos Lusitanos são sujeitos em tenra idade, nas provas de modelo e andamentos; ou no caso dos cavalos do Pablo Hermozo de Mendoza e do Rodrigo Torres; ou ainda numa realidade completamente diferente, como são as apresentações de cavalos novos montados nos países do centro da Europa (Ex. Alemanha ou Holanda)?

FCA – Penso que devem ser apresentados de forma brilhante, agora o que não pode ser é excessiva em relação às possibilidades de cada idade, tudo isso tem um preço. No modelo e andamentos as voltinhas puseram-se de moda, não as considero demolidoras, os cavalos também brincam entre eles às voltas, o que as considero é inúteis, mero desperdício de energia como várias vezes na FNC da Golegã tive ocasião de referir e pedir para demonstrar. A qualidade e regularidade dos andamentos melhora se andarem só a direito e assim acumularem potência com uma orientação lógica, passando os 3 vértices do triângulo ao pedido da mão esquerda do apresentador, sobre o olho esquerdo do poldro. Quanto às outras possibilidades de ir rápido, no estrangeiro vemos sobretudo “excesso de velocidade” na preparação dos leiloes, cometem-se muitos atropelos ao razoável. Tudo isto significa tempo de recuperação mental e física, ou até de cicatrização de cornadas como no caso tauromáquico.

 

Pablo Hermozo de Mendoza

RA – A escala de treino da FEI prevê que um cavalo chegue ao nível de Grande Prémio, por volta dos 11-12 anos de idade. Tendo em conta que o Lusitano é um cavalo com alguma facilidade de aprendizagem, considera essa escala adequada à raça Lusitana?

FCA – A FEI só permite a participação no GP a cavalos com o mínimo de 8 anos, embora existam muitos casos de talento que aos 4 já façam todos os exercícios, e que aos 5 consigam fazer um grande prémio sem sucumbir ao esforço da sequência. No trabalho do cavalo tem que ser acautelado um harmónico desenvolvimento dos andamentos, indo de mínimo a máximo e vice versa, com igual facilidade sem nunca muscular demasiado em reunião ou extensão e sempre de acordo com a tendência do cavalo

Lembro-me de há alguns anos atrás, estava com a equipa Portuguesa num internacional de Jerez de la Frontera e ao almoço, alguém referiu para a mesa dos juízes, “viram o Invasor” (filho do Opus).. Grande Prémio com 5 anos! ” Como com 5 anos?! ” exclama a Presidente do Júri. No dia seguinte foi proibido de participar.

Neste caso a precocidade do esforço não fez com que este célebre cavalo tivesse a sua carreira mais curta. É considerado normal que um cavalo demore 3 anos a estabilizar a sua prestação a nível de GP, por isso a maturidade competitiva raramente aparece antes dos 11.Em Portugal como o Lusitano o permite e convida, pelo seu talento, está instalada a mentalidade “Baucherista”. O melhor cavaleiro é o que consegue fazer mais habilidades em menos tempo. Pessoalmente dou mais valor ao cavaleiro que apresente um cavalo lusitano com 3 andamentos e respectivas transições puros, isso sim, representa uma considerável dificuldade técnica, inacessível à maioria dos cavaleiros, esse sim é o cavalo que dá prazer montar.

 

RA – Quais os pontos positivos e negativos da raça Lusitana na dressage? Em termos de selecção, e na sua opinião pessoal, o que é que deve ser mantido, melhorado e eliminado?

FCA – Uma das coisas mais difíceis de resolver, outra vez a tradição, e que é quase incompatível com a modalidade, é o facto dos lusitanos serem todos inteiros. Há muitas provas em que o ambiente é o da feira do ronco e do relincho. Não há paz nos aquecimentos, durante as provas e nas boxes, as provas são um monte de erros por distracção. Nem todos os cavalos merecem ser reprodutores, pelo que a enorme maioria, a bem do cavalo, deverá ser castrada, o mais cedo possível, para ter uma existência fácil, sem excitação e frustração permanente, além de não desenvolverem excessivo tecido adiposo na frente, que pesa mais do que podem suportar. Tenho incontáveis exemplos de cavalos imprestáveis sendo inteiros, que se tornaram animais úteis e até competitivos, com a castração. À parte de terem desenvolvido mais massa muscular na garupa e posteriores. Também se abre de imediato o mercado dos amadores que não conseguem lidar com garanhões.

Em termos de selecção, a tendência para as frentes pesadas é a primeira prioridade, logo a seguir aos andamentos correctos, já que talento temos de sobra. Tomaram as outras raças!

 

RA – Acha que a liberalização do acesso ao Livro de adultos com regras (ex. ausência de taras geneticamente transmissíveis; possibilidade de beneficiação de um número limitado de éguas – 10 éguas ano), actualmente preconizada por alguns criadores tem fundamento, ou representará um retrocesso face à actual forma de selecção oficial do cavalo Lusitano?

FCA – Creio que a liberalização faz todo o sentido, porque primeiro livra-nos do desprestígio das farsas de 5 minutos, em que um sisudo grupo de juízes decide o mesmo que juízes de outras raças, que demoram até 100 dias a apreciar e decidir. Esta é uma situação já parodiada internacionalmente! 

Defendo sim, que só possam ser admitidos garanhões, aptos em um exame internacional em acto de compra, com os 16 RX habituais e restante exame clínico. Propus também que estes candidatos sejam avaliados e catalogados por sistemas internacionais credíveis, para que se possa ter uma base de dados que facilite os emparelhamentos, informando com transparência os criadores e possíveis compradores, do valor técnico de cada animal. Seria factor de grande valorização dos reprodutores, e o respeito internacional para a raça. Creio que isto será uma forma de selecção, o que existe agora, é uma forma de destruição autorizada

 

RA – Sendo Portugal um país periférico no contexto europeu, até que ponto esta evidência limita a afirmação dos nossos cavalos e cavaleiros na “alta roda” da dressage mundial?

FCA – Já não existem limitações, o lusitano está “globalizado” e o número de conjuntos para o alto nível aumenta cada dia. Esta semana mesmo chegava a notícia da Luísa Valença triunfando a bordo de um Lusitano na Indonésia. Já existem alguns patrocinadores e existem também cavalos que se auto rentabilizam pela reprodução. Podemos estar no inicio da época de ouro para a raça, se fizermos menos mas melhores cavalos A crise mundial está a fazer a sua selecção, não a melhor equestremente, mas creio que há que reduzir drasticamente a tendência de reproduzir com qualquer égua e com qualquer cavalo inteiro. O mercado só quer qualidade e cavalos bem trabalhados.

 

5 thoughts on “NEW – Entrevista de Opinião – Francisco Cancella de Abreu

  1. Sergio Beck

    Prezados Rodrigo Almeida e Cancela de Abreu
    Em primeiro lugar minhas felicitações ao Rodrigo pelo enrme contributo que o seu precisoso blog aporta para o mundo do cavalo Lusitano. Cá no Brasil temos o Sr. Nogueira Martins com contributo semelhante e interncional no utilíssimo progrma por ele criado Tribuna Lusitana. Vocês dois estão a merecer uma grande homenagem de gratidão pelas relevantes informações que oferecem a todos que gostam do Lusitano.
    Em segundo lugar também minhas felicitações ao Sr. Cancela de Abreu. Embora não concorde exatamente com tudo que diz, admiro-o por sua coragem, grande conhecimento e independência.
    Cancela resumiu bem a questão do Lipizano quando disse “A grande questão que se levanta relativamente à raça Lipizzana, é se esta quer evoluir desportivamente, ou por outro lado, se considera que atingiu uma desejada estabilidade, com um tipo barroco, mais apto para uma equitação antiga, com mais concentrações que extensões.” Mas acho que no Lipizzano essa questão continua bem resolvida em prol do barroco, o que não quer dizer que não possa haver evolução e melhorias como um todo. No meu modesto entender acho que essa questão, esse dilema, se aplica até mais ao Lusitano. O que se quer? Um cavalo barroco ou um cavalo voltado para os desportos da FEI? Como barroco é dos melhores, senão o melhor, do mundo. Como barroco serve à arte eqüestre, à lida com gado, ao laser e à vários esportes que não os da FEI. Como barroco tem um mercado de preços mais baixos, mas por outro lado um mercado muito maior, especialmente fora da Europa. Como barroco o Lusitano só tem rival no PRE, no Lipizano e um pouco no Frisio. Como desportista da FEI há um longo caminho a percorrer. Só vejo mérito em se destacar no caminho da FEI se o PSL conservar a facilidade natural p/ movimentos alçados (elevados) e concentrados e também se não se aproximar demasiado do tipo grande, pernalta e longílíneo. Sem essas características não há Lusitano, só tentativas de imitar os warmblood. Há que se ressalvar aqui o caso novo do cavalo Totilas que foge um pouco do Warmblood e se aproxima outro tanto do cavalo barroco.
    Outra colocação do Cancela de Abreu que ouso indagar um pouco é o seguinte, quando ele diz:
    ” … quando o tipo é demasiado compacto e de membros curtos, como no caso do Lipizzano, a rigidez é sempre maior.”
    À luz do conhecimento de e com outras raças aqui do Continente Americano, como se explicaria a grande flexibilidade do Crioulo (vide desempenho em certas provas do concurso Freio de Ouro e até nas provas de Rédeas) e do Quarto de Milha nas provas de Apartação, de Rédeas, de Três Tambores, etc.?
    Acho que o cavalo compacto e de membros curtos leva desvantagens na amplitude de passadas e, talvez na extensão dos alongamentos, mas não na rigidez nem na flexibilidade, até pelo contrário.
    Ficaria honrado se Cancela de Abreu, Rodrigo Almeida, ou qualquer outro entendido se desse ao trabalho de comentar um pouco mais essas questões.
    E que viva o cavalo Lusitano. Abraço a todos. Sergio Beck.

    Responder
  2. joão de Deus

    Caro Rodrigo

    Não será uma resposta,porque nem houve pergunta.

    Li a entrevista de um Grande Homem de Cavalos,que sempre admirei,mas agora como estão aparecer os pormenores,começam também a aparecer pontos de vista diferentes entre nós.
    Não terei o atrevimento que dizer que ele os mudou,mas já não encaixam bem nas grandes directrizes que lhe reconhecia,ou que pensava reconhecer e interpretei,porque stou a achar grande preocupação com a rentabilidade monetária do Lusitano.

    O Cavalo Lusitano é um Património Nacional, tal como outro qualquer património que me abstenho de citar por poder parecer ridículo,e por isso,não pode estar sujeito e alterar-se consoante as exigências do mercado.
    Creio que mais nenhum País declarou uma raça de Cavalos desta maneira.
    Portanto a equação que FCA defende nas suas ideias,não se aplicam aqui.
    Uma tradição é um bem de um povo,e não há campo para evoluir nem direcção,tem a principal característica de se manter,e neste contexto, a frase “mais tradição menos evolução” não tem qualquer sentido,no meu entender.

    Os nosso netos gostarão de encontrar um Cavalo Lusitano,pelo menos como nós o temos, melhorado fisicamente como muito bem é defendido nesta entrevista,mas apenas isso.

    saudações Marialvas

    João de Deus

    Responder
  3. Helena Guimarães

    Sr. Cancela de Abreu

    Gosto da sua visão técnica para a selecção dos lusitanos o apuramento da raça segundo as actuais exigências nos concursos de primeiro plano, a componente organizacional para o conseguir também é essencial.

    Mas como se pode defender ” Na minha opinião o tronco ibérico devia promiscuidade, com a mesma aceitabilidade com que a raça Lipizzana o faz, tal como sempre se fez, até se ter criado esta “modernice” dos stud book PSL e PRE.”

    É tudo diferente, a forma de montar, o equipamento, os arreios, os artesãos têm produtos diferentes.

    É urgente implementar a sua meta de exigências para a raça e para a organização, mas não se pode misturar o que é antagónico.

    Helena Guimarães

    Responder
  4. Luis Sabido

    Uma pequena nota de provocação ao meu amigo João de Deus. São os próprios defensores do PSL enquanto cavalo barroco que diz que os cavalos lusitanos de hoje nada têm a ver com os lusitanos de há 30 ou 40 anos. São muitos melhores em todos os aspectos.
    Outra nota que gostaria de realçar. Um bom produto (sem sentido pejorativo) é bom porque tem valor. Mesmo que o valor seja sempre um factor relativo. Eu certamente não daria 100 euros por algumas pinturas que “valem” milhões no mercado da arte. Mas que um cavalo se vale (€€) mais é porque é melhor que outro de menos valor. Ora e o João sabe-o bem, não é possível vender-se um cavalo por valores que não pagam sequer a alimentação dos primeiros anos de vida. Ou então o cavalito passou muito a pão e água.

    Responder
  5. Jorge Carvalho

    Penso que o FCA está absolutamente certo! Quanto à questão da tradição… não há que ter enganos, o Fado é hoje património mundial e em grande parte, o maior contributo para este facto, foram as actualizações sucessivas, os novos e “melhorados” estilos e armonias de nomes como Mariza, Camané e tantos outros… sim está mais actual mas não deixa de ser fado… Tal como defende o FCA, também o Lusitano tem de se ir aprefeicoando… o mundo tem milhões de anos, vivemos em permanente evolução…

    Responder

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