Resposta de Francisco Cancella de Abreu ao comentário do Prof. Sérgio Beck, referente à entrevista abaixo publicada

 

Francisco Cancella de Abreu

 

Estimado Sérgio Beck,

É com muito gosto que respondo às suas questões, que me parecem ser fruto de significados e definições distintas das minhas.

Quanto à primeira, sobre o perigo de perdermos o tipo barroco, e se será um investimento acertado, a selecção com as mais modernas técnicas e objectivos actuais? Parto do principio que o significado de barroco implica um cavalo seleccionado como o mais apto, competente, e “desportivo”, cavalo do séc. XVIII. Com talento para executar um vasto reportório de exercícios, nomeadamente, ares altos, e ainda desembaraço nos jogos de guerra da época.

Hoje em dia apenas temos exigências similares em grande prémio, o que me parece um objectivo salutar, que promoverá melhor o lusitano, muito além da mera multiplicação, inerente à produção de cavalos da mesma raça.

Dos cavalos que lideram o ranking da dressage em Portugal, é obvio que os mesmos possuem as capacidades necessárias à competição Internacional, uma vez que aí também se classificam. Apesar desta internacionalização, devo dizer que nenhum destes animais perdeu as características ancestrais do cavalo barroco. Se apresentam um aspecto um pouco diferente dos cavalos das gravuras da época, isso se deve à musculação exigida, que contempla as extensões e reuniões em proporções equilibradas, essenciais à competição, que não se praticavam nos tempos de Marialva, onde a reunião para a mobilidade era o máximo e único objectivo.

Rubi (foto: dressageportugal)

Mesmo nos animais das mais recentes gerações, embora capazes de competir de igual para igual com os warmbloods, continuam a revelar uma superior facilidade de reunião, sendo natural para eles a execução de várias passadas de piaffer ou galope no mesmo terreno, aos 4 anos, reagindo às transições descendentes com superior facilidade. Ou seja, com uma selecção com objectivos concretos e ambiciosos só melhorou montabilidade, porque adquiriram mais força e elasticidade.

Quando estes animais forem mais velhos, e perderem a extrema forma física em que os mantemos, tornam-se mais gordos e volumosos, seguramente mais parecidos com os das gravuras. Contudo há uma diferença substancial na impulsão (distancia ao chão das passadas).

Quanto à segunda questão, penso tratar-se também de uma questão de significado técnico da palavra flexibilidade (supleness GB), que é o segundo degrau da escala de treino, e indispensável à obtenção do contacto constante, que deverá ainda ser suave e elástico. Recordando a escala: 1 ritmo , 2 flexibilidade, 3 contacto, impulsão ….etc..

Ora nas modalidades que refere, não existe contacto e muito menos ele é constante, tal como em dressage, obstáculos, completo etc.. O cavalo apenas tem que aceitar momentâneas solicitações da embocadura, seja para virar ou parar, o que o fazem com agilidade e rapidez, viajando o resto do tempo num equilíbrio educado, mas nunca de um modo flexível aceitando a embocadura, muito menos flexionado lateral e longitudinalmente como por exemplo nos apoios (ladeares).

No lusitano, mais que em qualquer outra raça, encontro problemas de hiper flexibilidade longitudinal, havendo um grande número de cavalos capaz de soltar a embocadura em aceleração, enquando nas restantes raças, o reflexo é a lógica do aumento do contacto. Esta hiper flexibilidade é a causa da deformabilidade que chega muitas vezes a permitir a auto destruição da estrutura do cavalo, levando ao encolhimento do pescoço, afundamento da caixa torácica, que produz a habitual falta de definição de andamentos, tão evidente no trote.

Melhores cumprimentos,

FCA

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