Pontuar… é preciso!?

Recentemente o garanhão Sal, montado pelo cavaleiro Nuno Palma Santos, ultrapassou mais uma vez a barreira dos 70,000%, na Kur da qualificativa 2010/2011 Reem Acra FEI World Cup™ Dressage em Neumunster, Alemanha.

A notícia mereceu algum destaque dos media em Portugal, no entanto, no meu entender impõe-se um aprofundamento sobre o que está por trás, nos lados e pela frente desta notícia: o plano de melhoramento da raça Lusitana.

Quem o conhece? Eu nunca o vi!

Tentarei “descascar” o assunto de forma assertiva e sucinta, no entanto, uma segunda pergunta terá de ser obrigatoriamente lançada: quais são os objectivos da raça?

No artigo 3.º do Regulamento do Livro Genealógico da Raça (RLG) pode ler-se: “O Livro tem por fim assegurar a preservação e melhoramento da raça Lusitana avaliando os seus reprodutores, concorrendo dessa forma para o aperfeiçoamento zootécnico da raça”… e novamente fico sem resposta há minha pergunta, pois daqui não consigo retirar qualquer objectivo de selecção!

Então como deverá ser feito o aperfeiçoamento zootécnico da raça? O normativo vigente diz-nos que é através de um sistema de selecção organizado em escalões, consignado no n.º 2 do anexo VI do RLG, em que o acesso ao Estatuto de reprodutor é obtido quando um equino é submetido a provas morfo-funcionais. No caso dos machos em concentrações públicas, e das fêmeas na exploração. Desta avaliação, e para todos os parâmetros apreciados, não poderão corresponder, três notas de seis (6), duas notas iguais a cinco (5), ou uma nota inferior a cinco (5).

Pois bem, diz-nos o RLG que esta classificação é feita comparando o animal a classificar, com o fenótipo ideal para a raça (padrão da Raça Lusitana), a que se atribuiu a pontuação 100. E, acrescenta ainda que, para além dos aspectos morfológicos, é também apreciada a funcionalidade, em especial os andamentos. Daí que os machos tenham de ser obrigatoriamente montados e apreciados a passo, trote e galope.

Resumindo, o animal é morfologicamente comparado com o padrão, e a sua avaliação funcional resulta dos seus andamentos. Desta apreciação ressalta um conjunto de pontos, que são vinculativos pois, concorde-se ou não com a avaliação, estes acompanham o animal para a vida. Como uma espécie de rótulo!

Na prática esta situação, está longe de ser pacífica, pois para alguns, sugere um enorme conflito entre morfologia/padrão e funcionalidade. Por exemplo, uma espádua ou um dorso geometricamente conformes com o padrão, não implica(m) necessariamente uma boa mecânica de andamentos, ou em última instância, uma funcionalidade oscilante. Mas o rótulo… esse é uma constante!

O que se tem verificado actualmente, é que os juízes têm  avaliado a morfologia em função da mecânica de andamentos, o que não está consignado em regulamento algum! Esta é uma das explicações para o avassalador nível de “chumbos” e baixas pontuações, a que temos assistido.

É perverso, mas o que acontece com frequência, é por exemplo, uma espádua estar perfeitamente de acordo com o padrão, mas é-lhe atribuída uma nota baixa, porque no conjunto, a locomoção/amplitude do cavalo não corresponde à perfeição da espádua!

Com que metodologia se tem contornado esta situação? Entregar as montadas a cavaleiros mais hábeis, e quase sempre mais caros, e nunca, levar cavalos muito novos.

No entanto, não me parece ser esse o caminho…

A experiência diz-nos, e são inúmeros os exemplos, que os andamentos não determinam funcionalidade de uma raça que nasceu da Gineta e se tem mantido pelo toureio.

Para tentar explicar melhor onde quero chegar, convido à reflexão das notas atribuídas pela APSL a três Lusitanos, três exemplos maiores da funcionalidade desta raça: O Guizo (Fundação Eugénio de Almeida) que apesar de ter uma nota de 6, no dorso e rim, era um animal notavelmente funcional em dressage, senão não tinha chegado aos 79 % atingidos no Grande Prémio de Ensino La Kur, em Montenmédio em 2001, nem tinha sido considerado um dos cinco melhores garanhões do Mundo em Ensino, no ano seguinte, no Campeonato do Mundo de  Jerez! Outro exemplo, ainda na dressage, é o do Sal (Bonacho dos Anjos) que apesar de ter uma nota de 7 em andamentos, está a pontuar na Alemanha e em Grande Prémio na casa dos 70,000%. No Toureio, aponto um dos Lusitanos que venceu a categoria de Melhor Cavalo de Toureio em 2009, o Passapé (Paulo Caetano), que tem nota de 6 nos andamentos!

 Nestes casos, as notas de 6 e 7, são sinónimo de muita funcionalidade!!!

 Não será contraproducente, que o cavalo da raça Puro Sangue Lusitano, qualificado por Decreto-Lei como património nacional e raça ameaçada, veja muitos dos seus exemplares desvalorizados e reprovados, pela aplicação deste sistema de avaliação que pelos vistos, avalia mal a morfologia, e pior a funcionalidade?

Recordemos que foi este mesmo sistema que reprovou a Toleirona (Manuel Veiga), avó do Opus-72 e Novilheiro, dois dos maiores embaixadores de sempre da funcionalidade desta raça! E já agora, que tanto um como outro, só cumpriram funções reprodutivas depois de plenamente testados na função, o primeiro no toureio e o segundo em saltos de obstáculos!

 A meu ver há que ser coerente com a especificidade da raça, e entender que a raça não está com um nível de selecção/conhecimento/alimentação capaz de gerar um método que exclua reprodutores desta forma aleatória, muito subjectiva e consequentemente discricionária, que ainda por cima é obrigatória, e representa elevados custos para os detentores dos animais que a ela se sujeitam!

Quantos casos se conhecem de animais com uma morfologia e andamentos pobres, mas que se revelaram progenitores de referência funcional? Inúmeros, diria eu!

E volto a perguntar: será necessário excluir para seleccionar? Quanto a mim, a exclusão da reprodução deverá partir da vontade dos criadores. Para tal, eles mesmos deverão ter formação credível e fiável, a par daquela que é veiculada nas raças mais evoluídas de cavalos de sela. Só com criadores que possuam um elevado sentido de responsabilidade relativamente às opções de escolha de reprodutores, conseguiremos evoluir, uma vez que são os próprios que terão de argumentar as mais valias dos seus produtos na hora de vender a matéria-prima que produzem. Não são, as entidades oficiais, e muito menos os juízes da raça, que lhes vão comercializar os poldros! A formação para além de necessária, deverá ser obrigatória!

Para terminar, penso que de futuro:

1.º Os objectivos para a raça deveriam ser claro e precisos;

 2.º Seja privilegiada a funcionalidade associada à performance em prova nas diferentes disciplinas;

3.º A par do currículo desportivo, a criação de provas de esforço deveriam passar a constituir outra opção de selecção dos criadores;

4.º Deveriam passar a existir bases de dados relativas à funcionalidade dos exemplares da raça, para estabelecer correlações genéticas associadas à aplicação do BLUP.

Por isso, qualquer animal filho de progenitores Lusitanos, desde que não possua taras com determinismo genético comprovado, poderia ser reprodutor! Não nos podemos dar ao luxo de eliminar reprodutores que poderão ser uma mais valia para a raça! A ideia para além de simples era de fácil execução, bastaria por exemplo, fazer uma inspecção veterinária relativa às taras anteriormente descritas (constituiria o único motivo de exclusão) e pagar-se uma taxa à APSL para poder beneficiar 10 éguas (o montante da taxa deverá ser pensado de forma a que o estatuto de reprodutor não seja banalizado). Para além disso, a progressão do número de éguas a beneficiar, estaria dependente dos resultados funcionais obtidos por esses animais, (dressage; toureio; atrelagem; equitação de trabalho; obstáculos).

Será que o simples, afinal é assim tão complicado?

 

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