Entrevista – Francisco C. Abreu

 GRANDE ENTREVISTA – a Francisco Cancela de Abreu

                                                                                                     

                                                                                                             Por Rodrigo Almeida

 

Numa altura em que se perspectiva a modernização dos métodos de selecção na raça Lusitana, essenciais para uma melhoria qualitativa na oferta de animais de qualidade aos utilizadores, parece-me de grande sentido de oportunidade entrevistar uma das personalidades que mais tem contribuído para a mudança do “status quo”, quer na qualidade de “opinion maker”, quer nos inúmeros contributos profissionais que tem desenvolvido em prol da profissionalização transversal da fileira equestre nacional. Nem sempre consensuais, as suas posições revelam uma inquietude vital ao abandono do estado de indiferença, característico do tradicional imobilismo português.

 

1.    Fazendo uma retrospectiva da evolução da raça e tendo em consideração que o aparecimento de cavalos de grande importância se têm mantido com um certo espaçamento (Firme, Novilheiro, Guiso, Peralta), quais as diferenças mais importantes que tem sentido em termos de montabilidade, mecânica de andamentos e força, entre os animais do passado e os do presente?

FCA. – Estes cavalos tiveram várias coisas em comum: pertenciam ao extracto médio-alto da raça, receberam muita e boa equitação, um proprietário ou patrocinador que resistiu às tentações de venda, e passaram a ter visibilidade através da competição ou toureio.

Quanto à montabilidade, era muito boa para todos embora no final de carreira pode haver confusão com o que o trabalho aportou. Só um reparo para o carácter pouco típico do Guizo que pode em parte ser desculpado por um passado atribulado, contudo o temperamento era tipicamente Lusitano.

Quanto à locomoção posso falar de todos menos do Firme que só conheci à mão, já no seu último ano, de vida mas tive em trabalho mais de 20 filhos dele e nenhum que não fosse muito superior á média, deixaram saudades. Os outros 3 tinham andamentos com a correcção suficiente de salientar o passo excepcional do Novilheiro no entanto tinha alguma inconsistência no trote, e um galope sem qualquer problema. Força não sobrava a nenhum deles talvez o mais poderoso seja o Peralta e também com um trote de maior qualidade. O Guizo é sobretudo, fruto de 8 anos de alta competição que fizeram dele o lusitano mais premiado.

O que aqui estou a fazer de memória há muito foi proposto que se fizesse oficialmente, numa base de dados de reprodutores com uma informação concreta e transparente, com descrição e notas dadas para mais de 10 parâmetros que sirvam de informação aos criadores. Isto para que haja conhecimento do tipo de cavalo que têm á disposição: se tem ou não saúde, Se as suas caracteristicas sao unicas ou vêm de familia, que tipo de descendência produz, para que tipo de égua é recomendável etc.

Este é um dos segredos da moderna criação, fornecer o máximo de ferramentas ao criador e não confundi-lo com um total de pontos, cujo único significado é se o cavalo é ou não alindado.

Creio que esse seria o grande avanço da criação em Portugal.

Mas como se vê, há gente em lugares importantes que discorda.

Estes cavalos, em relação aos actuais, seriam absolutamente competitivos. Os actuais, tal como o Peralta, terão mais força porque comeram melhor, possuem melhor esqueleto e articulações, o que garante maior superfície para inserção da massa muscular.

 Não defendo o fazer cavalos demasiado grandes, trata-se sim, às vezes, de mais um centímetro de perímetro de canela, 5 cm de garupa, 10 cm de pescoço, que fazem uma significativa diferença no rendimento.

 Devo dizer ainda que haveria muito mais cavalos que se notabilizariam se tivessem as mesmas oportunidades dos 4 referidos, mas uns perdem-se com a má utilização, outros ficam-se pela equitação de salão para mostrar aos amigos, e nunca aparecem, conheço vários.

 

2. Das três características anteriormente referidas como as classificaria por ordem de importância e porquê?

FCA. – Creio que devo pôr em primeiro lugar a força, sem ela nunca se deixam montar, andam sempre a fugir do peso do cavaleiro. Distingo dois tipos de força: a  capacidade de carga, ou a força necessária para se aguentar redondo em flexão com peso em cima, que se complementa com outra a força instantânea, de distensão ou impulsão.

Um cavalo de dressage tem de possuir ambas em perfeito equilíbrio. Já para saltar ou tourear não é necessária tanta capacidade de carga, e vemos vários cavalos com bom desempenho nestas modalidades, que jamais seriam aceitáveis em dressage.

Esta será mais uma razão para considerar a dressage um parâmetro muito importante numa avaliação de testagem. No caso de um lusitano com força a sobrar, a montabilidade é excelente, porque a flexibilidade é uma das características raciais bem como o talento e a humildade para se submeter aos caprichos do cavaleiro. Também com a força a mecânica de andamentos está assegurada e será excelente se a silhueta do cavalo for ladeira acima.

 

3.    As recentes revelações acerca da origem do Firme podem ser encaradas sob duas visões macro, a primeira de acordo com uma perspectiva purista na qual a imagem de raça milenar sofreu um ataque à sua imagem e credibilidade, a segunda é pragmática e encara a raça como um tronco Ibérico associado à história, modas, defeitos e virtudes do povo da Ibéria. Na sua opinião qual o enquadramento desta revelação face a uma raça que definitivamente é o espelho de todos aqueles que a construíram?

FCA. – O caso Firme, foi novidade para mim: Na época em que isso ocorreu pensava-se em fechar um stud-book, que estava totalmente aberto para acolher os animais que se aproximassem das características. O mesmo aconteceu com todas as raças fechadas. O livro do Puro Sangue Inglês (PSI), como lhe chamam os latinos, esteve aberto 30 anos, acolhendo potenciais melhoradores. Depois do livro fechado seria uma fraude, mas nessa data é só uma revelação, como naturalmente haverá várias mais. Devíamos fazer uma estátua ao Firme pela descendência ilustre.

 

 

4.    Nos cavalos de obstáculos o acto de ultrapassar o obstáculo determina o mérito, no caso do lusitano as provas morfo-funcionais podem ser encaradas como uma forma objectiva de diferenciação?

FCA. – As provas morfo-funcionais, ou como substituto uma conclusiva carreira desportiva / tauromáquica, são os únicos  certificados óbvios, da qualidade do individuo quando submetido ao esforço, e por isso obrigatoriamente usadas para seleccionar reprodutores em todas as raças de sucesso. Nunca são aceites como reprodutores, animais não testados  

São a única informação fiável, sobretudo se os esforços forem de vários tipos, e de várias modalidades. A possibilidade  de estudar o rendimento e evolução de cada indivíduo, e o facto de não haver influência especial de um cavaleiro, já que os testadores montam os cavalos em rotação permanente, dá-nos mais certezas quanto às  reais  qualidades. Se os resultados  corresponderem ao que cada raça exige a um possível melhorador,  o cavalo será  então  aprovado, ficando mesmo assim condicionado á verificação da qualidade da descendência.

 Incrivelmente as testagens, antes obrigatórias para os candidatos a reprodutores do estado português, foram progressivamente desaparecendo, sendo substituídas por um parâmetro “científico”, a que recentemente se chamou “feeling”.

Pela sua transcendência, só pode ser entendido por um grupo restrito de portugueses eleitos, que têm o dom de  entenderem a raça e fazer dela, o que o “feeling” ditar.

 

5.    Foi-me transmitido por um cavaleiro que montou lusitanos na Alemanha que a capacidade de resistência ao esforço dos wormblood ultrapassa substancialmente a dos lusitanos. Segundo o Eng.º Fernando D’Andrade, relativamente às provas morfo-funcionais praticadas na Estação Zootécnica Nacional (1934-1973), a prova de estrada (moderno raid) servia para avaliar a capacidade de resistência, e na corrida plana, a generosidade perante o esforço. Actualmente e na sua opinião qual a melhor forma de avaliar a resistência ao esforço?

FCA. – Em relação ao warmblood, o lusitano é carente de vigor ou tónus muscular. O mesmo se passa entre o lusitano e o PRE, conforme o Dr. José Monteiro constatou nas suas provas da Fonte Boa. Se criarmos com uma orientação correcta, essa diferença pode reduzir-se visivelmente, e o que faltar pode ser substituído por melhor talento e montabilidade lusa.

 

6.    Qual a sua perspectiva da polivalência da raça quando existe uma corrente de opinião em Portugal e no mundo que defende que muitos dos cavalo que colaboram com prestações médias em modalidades distintas, acabam por nunca atingir a excelência em nenhuma, qual a sua opinião relativamente a esta posição?

FCA. – A polivalência é uma faculdade da espécie equina, não particular, e muito menos exclusiva do lusitano. A qualquer cavalo, pónei, mula, burro, zebra por pior qualidade que tenha, não lhes restará outro remédio senão fazer o que o homem, com os seus meios de submissão mandar: agora puxas, agora saltas, agora corres etc..

 Pelo que em nada prestigia uma raça o facto de publicitar que é polivalente: claro que sim são todos.

 A especialização é a situação que permite ao cavalo revelar a sua máxima qualidade e alcançar a visibilidade mundial, se para isso tiver qualidade, tal como os que referimos acima. Todos eles foram especialistas, no entanto todos eles poderiam, claro está, fazer outras modalidades. Ao avaliar teremos de descobrir o talento ou vocação de cada candidato, se ela não for já evidente. É necessário que a variedade de modalidades exigida na testagem permita saber onde está a vocação.

A partir daí será tarefa do cavalo demonstrar que pode ser competitivo em determinada disciplina ou ficar-se por polivalente.

Hoje em dia a tendência é obviamente para a especialização: linha de salto e linha de dressage nos warmblods. A de salto mais condescendente com defeitos de morfologia, a de dressage substancialmente mais exigente. O que não significa que sejam estanques e que não haja casos de cavalos de salto bons em dressage e vice-versa.

Para o caso português parece-me que linha toureira/equitação de trabalho e linha de dressage/outras modalidades, já faz todo o sentido, os que não têm qualidades necessárias para chegar à especialização serão os tais polivalentes e terão também os seus compradores. Agora promover polivalentes colidiria por exemplo com um crioulo argentino, que também é polivalente e custa 5 vezes menos, chave na mão.

O que é fundamental é dar à selecção objectivos máximos, tal como na natureza só o máximo atleta tem possibilidades de beneficiar a manada.

Quando contrariamos esta “cruel” lei natural, iniciamos a degeneração de uma raça.

Não se podem usar como reprodutores animais de capacidade inferior, que só a domesticação possibilitou a sobrevivência. Estes nas estepes selvagens nunca chegariam a adultos, não atingiriam a velocidade de fuga e seriam as primeiras vitimas dos predadores, embora se calhar fossem os mais bonitos da manada.

O capricho, a ignorância e ganância humanas, têm estragado muitas raças, por insuficientes ou falsas exigências e ainda pela chamada tirania da estética, isto está perfeitamente documentado em vários autores de zootecnia.

Por isto considero a especialização como o objectivo de máxima dificuldade e fundamental para qualquer selecção.

 

7.    A competição até uma idade avançada implica cuidados acrescidos com a durabilidade. Qual a sua opinião técnica acerca dos cuidados a ter neste campo, na escolha dos multiplicadores (os reprodutores), uma vez que estão em causa questões ligadas às heritabilidades?

FCA. – Este é para mim um ponto fundamental, como utilizador e admirador da raça. A durabilidade de um produto depende em grande parte da genética.

Se os progenitores forem portadores de doenças transmissíveis existe, por exemplo, 69% de probabilidades para que transmitam a osteocondrose (estudos feitos no cavalo espanhol).  Doença óssea que degrada as articulações, (os famosos chips) que  se não inviabilizar por completo a utilização, encurta-a drasticamente.

Antes de utilizar qualquer reprodutor, antes de se começar a ter ”feeling” sobre o magnifico que serão os seus poldros…, recomenda-se sempre um exame radiográfico completo 16 RX digitais, bem como o restante  exame físico.

Seria ideal fazer o mesmo com as éguas, para quê criar doentes inúteis?

É uma pequena despesa que pode salvar um grande investimento.

A admissão de reprodutores de todas as raças associadas à World Breeders Federation for Sport Horses à excepção da APSL, passa por um exigente exame veterinário. Esta questão tem sido eternamente adiada em Portugal, ela acarretaria a desvalorização de algumas linhas que são portadoras de osteocondrose, doença do navicular e melanose,  não havendo a  necessária coragem para parar, enquanto há tempo, esta perigosa contaminação.

Talvez seja  necessário mais um escândalo para que haja a necessária publicidade, pois podemos estar a caminho de uma tragédia, tal como o descrédito internacional.

No momento temos 20% dos nossos lusitanos com osteocondrose e 40% não passa em exames de acto de compra, para Países mais exigentes, como Grã-Bretanha e Suécia, por estes ou outros motivos.

Na Fundação Alter Real (FAR) está prometido o exame radiográfico a todo o efectivo, já que tarda o decreto-lei que o torne obrigatório, pelo menos vão dando o exemplo.

Estes “pormenores” de saúde e restante processo de selecçao, são disciplinas básicas para qualquer criador que começa, fazem parte integrante dos cursos rápidos para criadores, organizados pelas associações de criadores na Dinamarca, Holanda, Alemanha etc. .

Curiosamente para um novo criador Português terão de passar 25 anos a empobrecer alegremente, para descobrir o mesmo que um colega estrangeiro aprende em menos de 3 meses. Ele irá utilizar os “prometedores” garanhões, aprovados em 5 minutos de “feeling”, sem superarem maior esforço que aguentar o relincho enquanto esperam, e casá-los com as éguas que criadores mais antigos e avisados dispensam, sem qualidade, ”mas de boas linhas”!

E assim eternizamos a mediocridade.

Há interesses mesquinhos dispostos a limitar o futuro de uma raça que já provou que consegue ter produtos ao melhor nível mundial, obrigando a prolongar um sistema de desselecção que limitará o nosso produto a um ridículo protagonismo internacional e a um consequente insignificante valor de mercado.

Se o Lusitano for bem produzido poderá instalar os melhores nos 100.000€ e um ou outro excepcional poderá mesmo chegar aos 500.000€, não perdendo a esperança de algum dia atingir o valor record de um poldro de 2 anos, 1.100.000€, da raça oldemburgo que afinal só desde 1960 passaram a fazer cavalos de sela.

Estas são as cotações já vulgares de bons cavalos de dressage ou salto no séc. XXI. Que custaram a ser feitos exactamente o mesmo que um lusitano.

Há mais de 30 anos mudei-me pela primeira vez para o estrangeiro e tive os primeiros contactos com os warmblood, conhecendo a transparência e a lógica dos métodos de selecção que lhes tinham permitido melhorar rapidissimamente as várias raças, partindo de cavalos impróprios para a sela por serem frios e pesados.

Conseguiram em poucos anos fazer da criação uma importante indústria nacional.

Dei conta do enorme negócio que podíamos ter se houvesse um sistema nacional que funcionasse para a optimização da nossa raça, já que partíamos de um cavalo muito mais montável e tínhamos uma variabilidade genética muito aceitável.

Durante alguns anos tive esperança que isso pudesse acontecer em Portugal.

Erro meu, a realidade é bem diferente, existe uma escassa dúzia de bons criadores que fazem os cavalos que prestigiam a raça, e uma maioria que tenta viver à custa dessa promoção.

A nível institucional o desinteresse pela selecção foi total, para o estrangeiro eram exportados cavalos de grande potencial melhorador, porque o estado tinha igual ou melhor diziam, recentemente  Alter abandonou  os cavalos numa  ilha e dedicou-se  à construção monumental.   A CN há anos que ao produzir  um cavalo útil para a raça,  vitima do excesso de  “feeling”, e falta de provas funcionais. Por último a APSL  tornou-se  exclusivamente no agente de marketing do lusitano, conseguindo criar um ambiente entre os sócios  de absoluto mau estar e desconfiança, pela falta de transparência da sua actuação.

Resultado: temos que ir  comprar sémen e reprodutores ao Brasil.

Tenho esperanças que a Fundação Alter Real consiga repôr a necessária  ordem, e se comece a ver a criação como um importante negócio nacional.

 

8.    Qual a melhor forma de avaliar a montabilidade e o temperamento? Poderão estes dois critérios desculpar alguns defeitos de morfologia? Ainda a este propósito considera, a luz do padrão da raça, que um dorso pode ser avaliado desligado da mecânica de andamentos?

FCA. – A montabilidade é normalmente avaliada durante a testagem ou num exame final. O grupo a avaliar deve ter idade e ou trabalho semelhante e usarem a mesma embocadura, os cavaleiros da testagens ou um grupo de cavaleiros convidados, de várias modalidades montarão todos os candidatos cerca de 5 minutos e atribuirão um nota a cada um e um comentário.

Em Portugal poderemos ter um 8 do toureiro, um 4 do cavaleiro de dressage, um 5 do cavaleiro de completo, o que seria também uma informação vocacional interessante.

O temperamento vem sempre associado à nota de carácter e só se pode dar com segurança em testagens prolongadas. Em testagem curta atribui-se uma nota de comportamento para os 2 ou 3 dias que dura. Há muitos casos registados de cavalos com 5 em carácter (maneira de ser) e 9 a temperamento (maneira de reagir) seria por exemplo o caso do Guizo.

São informações muito importantes e como referi acima, que devem fazer parte da tal base de dados que deveria existir há muito.

Uma boa montabilidade com um bom temperamento opera transformações fantásticas.

Essa é a  característica racial mais importante do lusitano a unica que o superioriza às outras raças ele tem uma exclusiva capacidade de superação.

Desde o meu último estágio na Holanda não voltei a dar a nota de modelo antes da prestação dinâmica ou seja, considera-se que não pode haver um 8 no modelo se as notas de salto e locomoção não passam de 6. A nota de modelo terá de ser no máximo 6, a tal noção de eficácia, que se deve sobrepor à tirania da estética inútil.

A ficha de classificação da APSL não o permite porque sempre há mais notas de modelo, que de andamentos, falseando assim a realidade. Ou seja sairá sempre beneficiado o bonito e prejudicado o bom, é para onde querem que sigamos?

No caso acima poderíamos ter um bonito modelo, um dorso bem direccionado e de comprimento adequado ao padrão, mas incapaz de transmitir o que o motor produz.

O contrário também aparece e é possível ver garanhões com um dorso teoricamente mau usá-lo magnificamente. A questão seguinte será tentar compensar o defeito morfológico para não o passar à descendência, casando-o com éguas com melhor conformação dorsal. Claro que me inclino pela aprovaçao deste ultimo, com modelo 6, passo, trote, galope e salto com 7’s e 8’s. Mas quem decidirá e confirmará a qualidade será a testagem.

 

9.    Relativamente à questão dos membros, atendendo à baixa heritabilidade desta característica e ao facto da raça ser fechada, como perspectiva em termos técnicos a evolução da raça?

FCA. – A raça peca por falta de substância óssea (desproporção entre o volume ósseo, articular e a restante massa corporal) em grande parte fruto de uma nutrição menos rica e equilibrada normalmente  irregular, que vem muitas  geraçoes anteriores

Uma das formas de corrigir genéticamente seria não permitir a aprovação com menos de x cm de perímetro de canela, o que tem sido temporariamente aplicado em algumas raças.

Contudo, para mim o problema mais grave dos membros está no que só se vê com RX, como já foi referido.  Porque se a égua cheia, já fôr bem alimentada, verifiquei mudanças da substância numa geração.

Tenho alguma experiência na correcção dos aprumos. Vistos de frente e de traz são facilmente corrigíveis pelos cascos, intervindo-se antes da desmama de preferência, e no máximo até ao ano, ficam perfeitos, mas curiosamente, mesmo bem aprumados há lusitanos que continuam a ceifar, vindo o desvio do ombro ou do codilho, às vezes de um só anterior.  De perfil já é muito mais difícil de corrigir, mas já tive um caso de excessiva verticalidade das quartelas, corrigida com ferração ortopédica. Nos posteriores é ainda mais difícil intervir, mas os avanços da ortopedia são notáveis.

 

10. Considera importante a selecção pelo toureio na construção do cavalo ganhador, sobretudo ao nível da moral?

FCA. – A selecção pelo toureio foi durante muitos anos a única possível, porque não havia outras modalidades, e produziu o que o nosso cavalo tem de melhor, um grande coração, qualidade e agilidade de galope únicas, grande energia disponível e o talento para aprender.

 Os mais representativos são os Veigas, fruto de cavalos testados por João Núncio, fixaram características únicas que são geneticamente facilmente transmissíveis, possivelmente devido ao elevado grau de consanguinidade.

As outras modalidades só podem agradecer as enormes qualidades trazidas pelo esforço toureiro, só é preciso acrescentar melhor locomoção a passo e trote.  É no sentido de um lusitano mais correcto e completo nos andamentos que é necessário evoluir,  usando reprodutores com mais força e um pouco menos de tecido adiposo, sobretudo no pescoço, que em muitos se transforma num sério “handicap”, as outras caracteristicas são mais que suficientes, tomaram os warmblood!

 

11. Recentemente ouvi um comentário que reflectia um certo preconceito na aceitação de cavalos de determinadas cores na disciplina de dressage, refiro-me a título de exemplo na aceitação de um atleta de cor baio. Existirá preconceito na modalidade relativamente à avaliação de cavalos de cores diferentes das dominantes na Alemanha (país de referência na dressage)? Extrapolando será visto da mesma forma que um bancário que decide ir trabalhar de fato amarelo?

FCA. – Na formação dos juízes de dressage, não consta nenhuma cadeira de cores, ou de preconceitos, a não ser contra a equitação incorrecta. A prová-lo estão o Balagur um garanhão Orloff, Isabel, que está entre os 10 melhores do mundo. Nos EUA há uma grande percentagem de tobianos, palominos e apaloosas a competir, e entre nós temos o Ne-Opus, Isabel, e tivemos o Buda, Luso Hannoveriano, baio, que também fez muitos internacionais e campeonatos da Europa, onde nunca encontrou racistas. O que está em causa é a qualidade da equitação que exibem, o resto não conta.

 

12. Qual deverá ser o impacto desta perspectiva na orientação de uma coudelaria vocacionada para a dressage?

FCA. – Não creio que possa ter qualquer importância. Muito para além da cor está a definição, regularidade, amplitude e impulsão dos andamentos, e a perfeição da execução, no fundo a capacidade atlética dos executantes, para aí vão as notas.

8 thoughts on “Entrevista – Francisco C. Abreu

  1. Claudia

    Maravilhoso, muito obrigada!!! Pelo trabalho de fazerem, e publicarem, e pela grandeza em compartilharem com a gente.

    Ler esta entrevista, e a “companion piece” do Sr. Bento Castelhano, fez o meu dia, muito obrigada!!

    Claudia

    Responder
  2. Elias Zoby

    Por que as idéias lúcidas, como as apresentadas na entrevista, a respeito da preponderância das características funcionais sobre as estéticas não encontram apoio entre os criadores de PSL?

    Ora, uma espécie que deve sua sobrevivência e evolução à capacidade de correr e saltar, ser avaliada principalmente pela aparência chega a ser erro infantil.

    A reprodução de defeitos ósseos numa raça pura beira a fraude.

    Dr. Elias Carlos Zoby
    Médico veterinário
    Pernambuco – Brasil

    Responder
    1. francisco cancella de abreu

      Caro Dr. Elias Zoby

      Cada vez mais os meus dados estatísticos confirmam, que o único sistema de avaliaçao fiável é a testagem pelo esforço , utilitário ou desportivo.
      A beleza nao existe no mundo dos cavalos , é um conceito do homem, para o qual o cavalo nao está genéticamente programado, e duvido muito, que venha a ser programável. Eficácia para sobreviver , e superaçao em situaçoes limite, sao os conceitos que na natureza seleccionam para se chegar a reprodutor Creio que só estes sao os parametros a preservar . O grave erro é continuar a nao atribuir definitivamente ao concurso de modelo e andamentos o valor que ele realmente tem , de desfile de beleza e ponto final.

      Responder
  3. Ruy Pessoa de Andrade

    Tendo passado uma vida ligado ao cavalo lusitano, e sendo sobrinho trineto de D. MANOEL
    CARLOS DE ANDRADE, que era irmâo do meu trisavô António Pessoa de Andrade, ESTOU, EM PERFEITA SINTONIA, com tudo o que expressa na sua entrevista que demonstra total atençâo
    e preocupaçâo, com o que se está a passar com a sócratisaçâo do cavalo lusitano, e que em muito tem de semelhanças, com a politica que esse P.M. DEIXOU DE HERANÇA, ao nosso PAÍS, que seja deitada com mâo de ferro o que ele SR. CANCELA DE ABREU PREDIZ NA SUA
    ENTREVISTA,CASO CONTRÁRIO ESTAMOS EM RISCO DE UMA REGRESSÂO SOBRE O POUCO QUE PROGREDIMOS!

    Responder
  4. Ruy Pessoa de Andrade

    O QUE TENHO A ACRESCENTAR É QUE SE COSTITUAM GRUPOS CONSTITUIDOS POS GENTE QUE TENHAM VIVIDO SEMPRE COM A PREOCUPAÇÂO DO MELHOR PARA O DESEMVOLVIMENTO DO CAVALO NOS MOLDES QUE ATRAZ COMENTOU, ACERTADAMENTE, O SR CANCELA DE ABREU.

    Responder
    1. francisco cancella de abreu

      Exmo Senhor
      Devo pedir desculpa, pelo tardio da minha resposta, mas realmente já tinha “encerrado” o blog . Fico grato, por tao ilustre descendente continuar na puríssima linha de pensamento do autor da obra de arte que é a Luz da Liberal… Se aqui se praticasse o que dentro dessa obra se recomenda teríamos um espectáculo únigo e genuínamente Portugues com nossa Escola de Arte Equestre e a criaçao estaria muito mais evoluída
      Com os melhores cumprimentos FCA

      Responder
  5. Ruy Pessoa de Andrade

    Exmo Senhor

    Está desculpado … RESPOSTA DEMORADA, RESPOSTA ACERTADA …, mas sugeria, se llhe parecer bem, marcarmos um encontro , para pessoalmente podermos trocar impressões sobre um tema que nos é especial-
    mente importante,que é o desenvolvimento do cavalo LUSITANO, para cada uma das actividades, a que pode ser utilizado.Jjá pensou, porque esse enorme Mestre do sec. 18, iniciou o titulo desse magnifico tratado equestre
    com as palavas… LUZ DA LIBERAL…
    Pois , foi essa a menssagem , para sempre, e por isso na Alemanha, tentarem encontrar os alemaes, por meio de consutas, amiude, para RESOLUÇAO, de alguns problemas equestres ,,, os GRANDES … NUNCA DESAPARECEM…
    Deixo à sua consideração, a minha sujesttâo.
    Saudaçôes Equestres
    RUY DE ANDRADE

    Responder

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