A ausência de meio-termo

ImagemO Lidador MV será uma eterna referência, e o pilar maior da raça Lusitana

Hoje em dia é vulgar a morfologia e os andamentos, numa análise super rápida, determinarem a qualidade de um cavalo, seguindo-se a aposição de um rótulo de 100% certeza. Tal imediatismo não é de estranhar, pois se os nossos serviços oficiais da raça Lusitana o fazem, na avaliação dos seus reprodutores, porque motivo tal exemplo não iria ser seguido por muitos, gerando um fenómeno cultural de superficialidade, tão similar à nossa sociedade de aparências, onde a meditação passou a ser vendida por opinion makers, quase todos conotados aos interesses envolvidos.

Há que meditar no seguinte: Será que um cavalo como o Lidador MV (considerado o melhor cavalo do Mestre João Núncio), o pai do Agareno MV, que tinha 1,51m, hoje em dia considerado um anão, sobreviveria à “exigência” dos “entendidos” dos dias que correm? Será que um Solo de D. Vicente Romero y Garcia, considerado uma referência pelo Dr. Ruy D’Andrade, sobreviveria ao modelo, ou a considerações modernas de animal “tosco”, “grosseiro”, ou mesmo de animal da carroça?

Só existe uma consideração que abafa estes espirros… a comprovada funcionalidade! No entanto os espirros são fortes, e a tosse vem por consequência, e neste panorama de gripe, vemos animais perfeitamente funcionais, atirados para a lama, por considerações de modelo perfeito ou de imaculados andamentos. Lembrem-se do Guizo da Fundação Eugénio de Almeida, que apesar de super funcional, “ninguém” o pretendia como reprodutor, para não passar um alegado mau carácter e má morfologia. Tomara a raça Lusitana estar cheia deste mau carácter e má morfologia… pois estes pontuaram e nunca foram umas eternas promessas, apenas nunca concretizadas, por desculpas das mil e uma noites. Seguramente que o discurso se sobrepôs à lógica e à prática, criando um emaranhado onde o rótulo sem qualquer conotação funcional passou a “Lei”.

Por outro lado seria importante reflectir na quantidade de cavalos que levam rótulos de complicados e por vezes de imontáveis, apenas porque não se dá tempo, sistematização, e qualidade de trabalho a estes animais. Sem estes condimentos, e porque muitas das vezes são os próprios proprietários a pretenderem um trabalho para ontem, é natural que muitos dos cavalos que poderiam ter um futuro digno, acabam por sucumbir ao rótulo de “coirão”, a maioria das vezes aposto pelo próprio cavaleiro, para desculpar as suas próprias falhas. Cavalo finos montados por cavaleiros toscos dá mau resultado, conforme dizia o Dr. Guilherme Borba numa entrevista. A história, a cultura, e o tempo, constituem os mais sábios dos ensinamentos.

São todas estas questões que, sem fundamentalismos e de uma forma ordeira e desapaixonada, devem ser expostas, equacionadas, e discutidas entre todos, a bem do progresso da raça. Ou não!?

É importante reflectir nas consequências do imediatismo superficial dos julgamentos inquisitórios actualmente praticados pela maioria das nossas gentes, em que a fronteira entre o animal excelente e o péssimo, oscila ausente de meio-termo, gerando o desentendimento e a confusão entre as gentes do mundo do Lusitano.

 

 

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Entrevista a Paulo Caetano já nas bancas

Paulo Caetano com Belmonte PC (Sol e Sombra PC x Oliva PC)

Paulo Caetano com Belmonte PC (Sol e Sombra PC x Oliva PC)

Nesta edição da Revista Equitação poderá ler uma entrevista muito interessante ao Maestro Paulo Caetano, que através da eloquência tão característica do entrevistado, nos transporta à sua interpretação dos pormenores da criação na dinâmica do cavalo funcional, quer na vertente toureio, quer na dressage.

Através destas entrevistas tenho procurado fazer chegar aos leitores as ideias dos nossos criadores de top. As suas respostas demonstram a motivação funcional que faz com que as suas coudelarias sejam uma referência para os utilizadores. Em números anteriores entrevistei os seguintes criadores: Manuel Braga; Jorge Ortigão Costa; Frederico Bonacho.

Na próxima edição da Revista Equitação sairá uma entrevista igualmente prometedora, desta feita, não a um criador, mas antes a um treinador de dressage que muito tem influenciado a criação. Estou obviamente a referir-me a um dos meus entrevistados de eleição, o Francisco Cancella de Abreu. Se alguém achava que o Francisco já tinha tudo dito, surpreendam-se com a leitura desta entrevista.

Ainda para aqueles que acham que já viram tudo, deixo-lhes as surpreendentes imagens de dois cavalos do Paulo Caetano, que eu gostei muito:

Genética e Criação de Cavalos – por William E. Jones

 

“A criação de alguns potros de tempos em tempos pode dar muito prazer. Produzir uma safra anual de cavalos para vender pode dar muito lucro. Mas um “verdadeiro criador de cavalos” orienta sua criação por toda a vida na tentativa de criar ou preservar um cavalo “perfeito”; o prazer e o lucro são meramente recompensas. A satisfação real surge conforme ele observa progressos em seu objetivo.

Não é fácil melhorar uma raça de cavalos. Isto não ocorre em um ano, ou mesmo em 10 anos, e sem inteligência, diligência ou mesmo uma seleção impiedosa durante um período de anos e anos, um criador pode terminar seu trabalho de toda uma vida sem nenhum progresso. Um verdadeiro criador de cavalos leva seu trabalho a sério. Ele inicia sua missão definindo claramente que tipo de cavalo deseja e esta definição ou descrição deve ser extremamente detalhada; de outro modo, a tendência é a de mudar seu objetivo com cada dificuldade que surge.

Nenhum progresso pode ser feito quanto a um tipo ideal sem que o criador mantenha seu objetivo predeterminado, sem vacilar durante os diversos anos que são necessários para colher resultados significativos. Desde o início o criador de cavalos bem-sucedido deve olhar muitos anos a frente e acuradamente projetar o que é realmente importante, sem levar em conta os modismos. Diversos criadores tentaram ser verdadeiros criadores de cavalos, mas perderam a batalha porque vacilaram. Dúvidas e alterações de objetivos surgiram nos que não meditaram profundamente no início do projeto e nos que se deixaram levar por outros. Os objetivos serão alterados e desaparecerão nos criadores que estão preocupados com os ganhadores de exposições anuais e como esses cavalos se comparam com seu plantel.

Com o passar dos anos os padrões dos julgamentos de exposições evoluem.

Os criadores preocupados com programas de longo prazo não devem ajustar seus objetivos de acordo com as alterações feitas nos padrões de exposições. O seguimento de tal programa leva a um caminho em círculos sem que nunca o criador atinja seu objetivo.

Para se obter sucesso na criação e exposição deve-se ter uma previsão considerável. O processo relativamente simples de cruzar um garanhão famoso com éguas de alto custo e a venda de potros com altos lucros não constitui necessariamente um programa de criação. Em nenhum momento ele traz o respeito dos outros criadores. Um programa que se inicie com um plantel escolhido com base em traços específicos ao invés de preços, e que prossiga com base num sistema predeterminado, ao invés de preceitos de compradores volúveis, provará ser mais profundo.”

William E. Jones

Entrevista a Francisco Abecasis

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Para quem não conhece o Francisco Abecasis, farei um breve enquadramento que esclarecerá a pertinência deste apelo à exposição de ideias de um utilizador não profissional. O Francisco é advogado de profissão, e um profundo apaixonado pela equitação nas horas vagas. Recentemente passou a acrescentar aos seus fins de semana mais uma ocupação apaixonante, a competição em provas de dressage. Como referência técnica do seu aprendizado, surge-nos a figura de referência de João Trigueiros de Aragão. Da conversa mantida sobressai um forte apelo à equitação clássica e aos cavalos finos, a par de uma grande entrega e dedicação à coudelaria da família, localizada na Quinta do Pilar – Azambuja.

1.            Qual a regularidade e nível de entrega que a sua profissão de advogado lhe permite dedicar aos cavalos?

A Advocacia, apesar de muito absorvente, permite-me gerir o meu tempo. Por outro lado, tenho o privilégio de morar na quinta onde temos os cavalos. A porta de minha casa dista 20 metros da cavalariça. Assim, independentemente da hora a que chego a casa, posso sempre ir montar. São raros os dias em que não monto e quando isso acontece fico extremamente ansioso… ao ponto de ser a minha mulher que me põe fora de casa. 

2.            No que respeita a cavaleiros, quem são as suas referências?

O cavaleiro que mais me impressionou ver montar foi sem dúvida o João Trigueiros de Aragão. Até hoje não vi cavaleiro tão completo, com cultura equestre invejável e capaz de tirar o melhor partido de qualquer tipo de cavalo. Tive o privilégio de ter lições com ele durante muitos anos e de, debaixo da sua orientação, ter desbastado e ensinado vários cavalos, dos quais guardo especial recordação do Herói que montei durante 6 anos.

3.            Quais as suas referências literárias?

Por influência do João Trigueiros de Aragão, sou apologista da denominada “Ecóle de Légèreté”. As obras que tenho sempre à mão são “The Complete Training of Horse and Rider”, de Alois Podhajsky e “Extérieur et Haute École”, de Etienne Beudant. Li recentemente e também recomendo “Twisted Truths of Modern Dressage”, de Philippe Karl.     

4.            Sabendo da sua preferência pelo cavalo Lusitano, enquanto criador e utilizador, quais considera o tipo de cavalo e as linhas que melhor se adaptam à utilização que defende?

Eu não defendo nenhuma utilização em especial. O PSL é por natureza um cavalo polivalente, porventura mais do que qualquer outra raça. Como criadores, não nos compete tomar uma opção relativamente à utilização dos nossos cavalos, isso compete a quem os compra. O que procuramos é criar cavalos dentro do padrão da raça com condições físicas e psíquicas que lhes dê a tal polivalência, isto é, que tenha os atributos necessários para qualquer utilização, seja ela ensino, toureio, obstáculos ou outra.

As nossas linhas assentam em linhas muito consolidadas e funcionais, predominantemente Veiga.

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5.            Porque motivo escolheu um cavalo de linha Alter Real – o Conquistador -, para a recente participação em provas de dressage?

Em primeiro lugar devo dizer que o ano passado foi o primeiro ano em que participei em provas federado e tem sido uma experiência muito enriquecedora. A competição constitui, sem dúvida, um factor de motivação extra que nos leva a trabalhar o nosso cavalo com afinco para a prova do fim de semana. Porém, devo dizer que encaro as provas de dressage como um desporto, com regras próprias, as quais, embora assentem nos princípios da equitação dita clássica, nem sempre premeia a melhor equitação. Demonstrativo do que acabo de dizer é o facto de serem raros, mesmo ao mais alto nível internacional, os cavalos que exibem em grande prémio um correcto piaffé, sendo certo que todos os grandes mestres de equitação clássica são unânimes em dizer que o piaffé é a prova dos nove de um cavalo bem ensinado… Bem, mas eu não quero com isto dizer que tenho qualquer tipo de reservas em relação às provas, antes pelo contrário, considero que este é o desporto onde melhor equitação se pratica. Porém, na minha perspectiva, a equitação, quando bem executada, é muito mais do que um desporto, é uma arte e, como dizia, salvo erro, o Mestre Nuno de Oliveira, a arte não se mede.

Respondendo agora à tua pergunta sobre a escolha de um cavalo de linha AR. A minha veia de cavaleiro faz-me querer montar e experimentar todos os cavalos. Acho que montar cavalos diferentes é fundamental na evolução de um cavaleiro e eu nunca tinha montado um cavalo Alter Real. Assim, quando, há uns anos atrás, fui a casa do meu amigo e criador Juan Cordeiro e vi o Conquistador, na altura ainda com dois anos, fiquei logo com vontade de o levar para minha casa, o que fiz um ano depois. Trata-se de um cavalo que, apesar de não ser do nosso ferro, é um dos primeiros produtos da coudelaria de um grande amigo, tendo eu estado presente quando ele comprou a Rabaça (mãe do Conquistador), pelo que é como se estivesse a montar um cavalo do nosso ferro.

Este ano comecei também a concursar com o Divagante, do nosso ferro. Vamos ver como corre.

6.                    O que é para si um cavalo fino?

Boa pergunta e a resposta não é fácil. De facto, nem sempre atribuímos à expressão “cavalo fino” o mesmo significado. Eu diria que um cavalo fino é um cavalo atento a tudo, mas com capacidade de se concentrar no trabalho, reagindo prontamente aos estímulos e ajudas do cavaleiro. Deve também ser um cavalo com facilidade e predisposição para trabalhar. Um cavalo fino é, portanto, um cavalo bom. Mas atenção que um bom cavalo não tem necessariamente de ter vocação para desporto, seja saltos ou dressage. Nem todos os cavalos têm de ser grandes, com enorme capacidade atlética e com andamentos largos. Penso, aliás, que um dos erros que se tem cometido ultimamente e que se pode vir a pagar caro, é avaliar e seleccionar o PSL de acordo com padrões de outras raças mais orientadas para a competição.   

7.            Quais os objectivos que presidiram à recente apresentação de cavalos que ocorreu na coudelaria Henrique Abecasis?

A nossa Coudelaria é relativamente recente e, apesar de nos últimos 20 anos termos tido alguns produtos de grande qualidade e que se notabilizaram no toureio (Mouxca, Mourisco, Quatrilho, Ousada, Sujeito, Seu Janota, Suxto), a verdade é que só agora estamos a chegar a um ponto de maturação da Coudelaria e por isso entendemos ser uma boa altura de divulgar o nosso projecto de criação e ensino de cavalos. Por outro lado, queríamos ouvir as opiniões de pessoas de diferentes quadrantes equestres relativamente aos nossos produtos e ao nosso trabalho. Penso que correu muito bem e é para repetir.

8.            Que propostas tem a coudelaria Henrique Abecasis para quem pretenda adquirir um cavalo, ou dedicar parte do seu tempo aos cavalos?

A Coudelaria Henrique Abecasis não se limita a criar cavalos Lusitanos, procurando também desbastar e ensinar os seus cavalos acrescentando-lhes valor por essa via.

Entendemos que o desbaste é a fase mais importante do ensino de um cavalo, na medida em que constitui as bases sobre as quais assentará todo o trabalho posterior. Um cavalo que, durante o desbaste, adquira taras psíquicas e se desenvolva fisicamente de forma incorrecta dificilmente será um bom cavalo de sela. Depois vêm as desculpas dos maus cavaleiros que injustamente rotulam os cavalos de coirões, retivos (palavra que oiço muito e que julgo significar não querer andar para diante),  má cabeça, má mecânica de andamentos, etc… Assim, também por esta razão, tentamos vender os nossos cavalos já com o desbaste concluído e aptos a aceitar qualquer tipo de utilização que o seu novo dano lhes queira dar. 

Quem compra um cavalo nosso não está apenas a comprar um cavalo Lusitano com linhas reconhecidamente boas, mas está também a adquirir um cavalo desbastado e ensinado de acordo com um método de equitação que visa proporcionar ao cavaleiro o máximo prazer, nomeadamente face à descontracção e ausência de resistências, ligeireza e saúde física e mental do cavalo.

A nossa proposta é que venha experimentar os nossos cavalos e surpreenda-se.