Provas morfo-funcionais em Portugal

 

O texto abaixo exposto faz parte integrante do trabalho do autor deste blog, intitulado, “Aspectos morfo-funcionais do cavalo Lusitano”. Caso exista interesse em consultar as fotografias e tabelas, anexas a este texto, não deixe de nos contactar.

 

 

 

História das provas morfo-funcionais em Portugal

 

Foi na antiga Tapada Real em Mafra que, em 1911 com a implantação da república, foi criado o Depósito de Remonta e Garanhões. A função de Remonta cessa em 1930, continuando o Depósito de Garanhões a funcionar até 1937, ano em que é transferido para a Estação Zootécnica Nacional (EZN) (Mathias, 1980).

 

As primeiras provas morfo-funcionais realizadas em Portugal foram efectuadas na então coudelaria militar de Alter e em Mafra (no extinto depósito de garanhões). Mais tarde foram reiniciadas na Estação Zootécnica Nacional em 1934, pelo Dr. José Menezes, Chefe dos Serviços Coudélicos e continuadas pelos seus sucessores, Dr. Furtado Coelho (1937) e Dr. José Monteiro que desenvolvendo o trabalho dos seus antecessores elaborou o esquema de apreciação mais rigoroso e completo até então (Monteiro, 1983).

 

As possibilidades dos cavalos Lusitanos e Espanhois foram inicialmente sub-estimadas, havendo grande variabilidade nas suas prestações. Esta justifica-se, pela ausência de selecção no sentido do desporto.

 

O Dr. José Monteiro constatou que a capacidade de resistência ao esforço dos últimos animais a serem importados de Espanha (1960), se encontrava abaixo da exigida aos reprodutores seleccionados na Estação Zootécnica Nacional (Monteiro, 1983).

 

Nos quadros abaixo transpostos pode-se apreciar a evolução, fruto da selecção funcional, através da subida do grau de dificuldade das provas ministradas ao longo dos anos na EZN.

   

O Eng.º Fernando Sommer d’Andrade refere a importância de algumas das provas praticadas na EZN:

Ø  Na prova de estrada (moderno raid), era avaliada a integridade dos membros, a saúde, a qualidade da pele e cascos e  a capacidade de resistência (suportar por várias horas, o peso de um cavaleiro);

Ø  Na corrida plana era avaliado o tónus muscular, a velocidade, o sistema nervoso e a generosidade perante o esforço (d’Andrade, F., ?).

 

Na década de cinquenta, em Alter do Chão, e numa tentativa de recuperação da “raça” Alter , foram implementadas, provas morfo-funcionais . Os critérios que presidiram a este tipo de selecção funcional, basearam-se nas características mínimas que se exigiam na altura a um cavalo de sela de vocação polivalente. Foi assim criado um programa de provas morfo-funcionais para a selecção de reprodutores masculinos e femininos (Duarte, 1999).

 

Tabela de provas funcionais para garanhões

 

 

 

 

 

Provas morfo-funcionais ministradas pelo Dr. José Monteiro

 

As provas morfo-funcionais são aplicadas aos poldros e poldras de três anos e meio, e aos garanhões de seis anos. Este exame é completado posteriormente, pela apreciação de “progenie” do reprodutor feita através da sua descendência. Por falta de informação não nos foi possível confirmar esta apreciação e a maneira como se processava.

 

A prova real do valor genotípico do reprodutor, está condicionada por vários factores limitantes como por exemplo:

1.      valor da descendência dum garanhão só é descoberto quando este já está velho.

2.      A escassa descendência duma égua agrava ainda mais esta dificuldade;

3.      Geralmente um bom garanhão só beneficia éguas de reconhecido valor, o que naturalmente, vai influir na qualidade dos produtos (tratamento preferencial);

4.      A alimentação, o ensino, o treino e o cavaleiro utilizador exercem uma grande influência no desenvolvimento e robustez dos produtos e nos resultados desportivos obtidos, o que torna difícil distinguir entre a influência genética e efeitos ambientais (Monteiro, 1983).

 

Apreciação morfológica

 

A apreciação morfológica era completada pela anotação de todas as características passíveis de registo biométrico.

Assim a apreciação morfológica era condicionada por:

1.      Apreciação biométrica;

2.      Enumeração e descrição de belezas e defeitos em relação ao tipo, à idade e à função.

 

Para a enumeração e descrição das belezas e defeitos era utilizada uma tabela de avaliação morfológica que é exposta em seguida (Quadro 12).

 

 

Pode verificar-se por comparação com a tabela de avaliação morfológica actualmente utilizada pela APSL, que a tabela usada pelo Dr. José Monteiro é mais completa. Nesta as regiões são avaliadas isoladamente e os membros são divididos de acordo com o seu grau de importância funcional. A concepção da tabela está claramente vocacionada para a função, daqui pode retirar-se a importância funcional de algumas regiões às quais foi atribuída uma pontuação baixa (cabeça, costado e o peitoral).

O valor total atribuído é dividido por 10 de modo a ser incluído na tabela de apreciação funcional.

 

Apreciação funcional dos garanhões

 

Os cavalos sujeitos a estas provas tinham de ter no mínimo 6 anos e terem atingido uma altura ao garrote de 1,56m. Seguidamente são expostos os tipos de provas e coeficientes de avaliação utilizados nestas.

 

Pode-se constatar que existiram cinco tipos de provas (Estrada, Corta-mato, Corrida plana, Obstáculos e Picadeiro) que formam em conjunto a dinâmica. A pontuação obtida em cada tipo de prova é multiplicada pelo coeficiente de dois. O total de pontos obtidos na dinâmica é dividido por dez e multiplicado por um coeficiente de três.

Os treinos para as provas finais servem para avaliar a resistência e integridade, o temperamento e a sobriedade.  A pontuação obtida nestes parâmetros é multiplicada pelo coeficiente de dois.

Finalmente a pontuação atribuída à morfologia é multiplicada por um coeficiente de um. Pode interpretar-se através do valor baixo que este coeficiente assume que era dada pouca importância à morfologia.

 

As provas finais ocorriam em cinco dias.

 

A pontuação total para as classificações finais era extraída da tabela de apreciação funcional e a aprovação dos animais para reprodutores era processada conforme pode ser observado no quadro abaixo exposto.

 

Prova de picadeiro para poldros

 

Sendo a prova de picadeiro para poldros (descrita em anexo) uma prova elementar que visava apenas a obediência às rédeas directas nos três andamentos, julgou-se conveniente juntar um outro teste; a prova de docilidade, que punha em evidência a calma, a submissão e a docilidade, em suma o carácter do poldro sujeito às várias solicitações do maneio.

Em seguida é exposto o esquema orientador da prova de ensino e da prova de docilidade .

 

 

Prova de docilidade:

 

1.      Desmontar pela direita, montar pela direita e desmontar pela esquerda;

2.      Desaparelhar sem auxílio de segunda pessoa;

3.      Condução à mão, à direita e à esquerda;

4.      Aparelhar sem auxílio de segunda pessoa;

5.      Elevação dos quatro membros, sucessivamente;

6.      Montar e sair do picadeiro a passo com rédeas largas.

 

Prova de picadeiro para cavalos

 

Nesta prova (descrita em anexo), que se realiza num picadeiro de 38m*17m sinalizado com as letras utilizadas internacionalmente, atender-se-à não só à submissão e facilidade na execução dos exercícios, colocação, etc., mas principalmente, ao estado geral apresentado, brilho e vivacidade, beleza e correcção dos movimentos, generosidade revelada, etc..

Procurar-se-ão mais as qualidades intrínsecas do animal do que as do ensino, pois este, em grande parte, é dependente da perícia do cavaleiro.

 

Apreciação funcional dos poldros e poldras.

 

A apreciação funcional dos poldros é verificada através da observação dos seguintes parâmetros:

1.      Dinâmica – prova de estrada, corta-mato, galope em pista e prova de picadeiro e docilidade;

2.      Resistência e integridade;

3.      Temperamento (índole e moral);

4.      Sobriedade;

5.      Morfologia.

 

Breve resenha de resultados das provas

 

Estes apontamentos foram retirados do II Congresso Nacional de Medicina Veterinária – Dr. José Monteiro e Dr. António P. Lino Neto – Novembro de 1983.

 

Em 1970 o Dr. Monteiro afirmava: “a genealogia indica-nos o que o cavalo deve ser, a morfologia o que o cavalo pode ser, mas só a prova funcional revela o que o cavalo é de facto”.

Nos primeiros anos das provas os cavalos espanhóis importados obtinham resultados semelhantes aos dos Lusitanos da Coudelaria Nacional.

  • Assim, em 1935 a corrida de obstáculos foi ganha pelo “Cartujano”, espanhol, a 639 m/min. Logo seguido pelo “Temudo”, Lusitano CN, a 635 m/min.
  • Em 1959 ainda o “Jamonero”, espanhol importado, ganha o corta-mato a 558 m/min., mas foi este o último cavalo espanhol a destacar-se. Neste mesmo ano fica em último lugar no corta-mato o “Indiano”, espanhol importado, a 409 m/min; os outros dois espanhóis importados – “Labrador” e “Zaragozano” – ficam em lugares intermédios; na corrida plana ficam os quatro em lugares intermédios.
  • Em 1962 o espanhol “Canelo” fica em último lugar no corta-mato a 461 m/min. O qual foi ganho pelo “Valoroso” CN, a 674 m/min. Também na corrida ficou em último lugar a 627 m/min., sendo o “Valoroso” o primeiro a 683 m/min.
  • Em 1968 fazem provas os espanhóis “Ingénito” e “Inato”; no corta-mato ocuparam os dois últimos lugares a 540 m/min. E 486 m/min. Respectivamente; sendo o melhor tempo o do “Danúbio”, Lusitano CN, que fez 601 m/min.. Não foram os cavalos espanhóis à corrida plana por claudicação.
  • Em 1972 fez o corta-mato o espanhol importado “Habanero”, à velocidade de 466 m/min., sendo o último; ganhou o “Hiparco” CN, a 593 m/min.. Não houve corrida plana devido ao estado do terreno

 

Pela evolução das exigências ao longo de quase 40 anos de provas morfo-funcionais para garanhões da Coudelaria Nacional – o seu primeiro regulamento data de 1934 e o último de 1973 – verifica-se que estas foram regularmente crescentes, correspondendo à também crescente, embora expressa com menor regularidade, qualidade dos cavalos. Anota-se ainda que a partir de 1960, os cavalos espanhóis importados alcançam sempre resultados inferiores aos dos Lusitanos, certamente por serem seleccionados de outra forma. Comparando genericamente exigências e resultados, verifica-se que nos últimos anos em que se fizeram provas, as melhores velocidades tanto da corrida plana como do corta-mato, superaram os mínimos  exigidos em perto de 100 m/min., e ainda que os cavalos provenientes de linhas não seleccionadas pela mesma forma se ficam não longe dos mínimos, que alguns nem sequer atingem.

 

 

 

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